AMEBA E GIÁRDIA
Épico
Diminua a velocidade, Parasita,
Quero respirar o ar de Úrsula Maior...
Nestes prados e bosques não há o pó
Que desnutre o sonho de uma sabedoria infinita.
- Vossa Majestade sabe que o perigo
Reina nos desertos de qualquer imensidão,
Que não se deve fincar os pés num chão
Onde não se tenha pelo menos um amigo.
- Eu sou Ameba, Rainha do Cruzeiro do Sul,
A atmosfera me rende o mais fiel respeito.
Druds será a conquista de um plano perfeito,
Para que se possa entender a natureza do Planeta Azul.
- Não vejo com bons olhos essa sua ambição...
Desejar conquistar um orbe repleto de violência,
Em que seus indivíduos perderam a consciência
E se matam entre si sem a mínima compaixão.
- Estacione! Preciso de contemplar esta paisagem,
Purificar meu olfato para uma batalha fria,
Confabular com meus deuses sem a agonia
Das mentes que tentam boicotar minha coragem.
- Druds está próximo, Majestade! Veja, acolá!
Giárdia, sua irmã, há de recebê-la bem,
Afinal, trazemos a inteligência que ela só tem
Quando reconhece que no Cruzeiro do Sul está seu lar!
- Ótimo, Parasita! Ameba desce aqui e sozinha,
Não quero ser interrompida em minha reflexão,
O trono de Druds foi concedido à Giárdia pela paixão
De um duende e essa região precisa de ser minha.
Ameba abandonou os degraus de sua nave,
Pisou firme numa areia fofa, meio movediça,
Caminhou atenta entre arbustos que enfeitiçam
O pensar maquiavélico da certas personalidades.
Andou... andou... sem mirar seu destino,
De repente viu-se perdida numa estação árida...
Sim... surpresa! Diante de si estava Giárdia
Que não compreendia a razão deste desatino...
II
- Quê fazes por aqui, donzela ? Estás perdida ?
Acabas de invadir um espaço que agora é meu...
O último intruso que aqui esteve morreu
Ferido pela lâmina de minha espada dourada e temida!
- Não é possível! Como conseguiste este feito?
Teu exército naufraga na incompetência e é pobre...
Eu sim, sou a maravilha das galáxias, sou nobre
E minhas aspirações são projetos sem defeitos...
- Hum! Quanta arrogância nesta minha irmã!
Até se esquece que não sou eu a bastarda...
A justiça dos deuses nem falha, nem tarda
E perante minha ótica coloca a sabedoria anã...
- Tu és a traidora! Deixaste-te possuir por um duende
Que se apossou de ti com ímpetos de magia,
Que te segrega a saudade, faz de tua solidão nostalgia
E em tua tristeza constrói uma felicidade aparente!
- Como estás enganada! Druds é o paraíso das inteligências,
Lá estão adormecidos os gênios do Planeta Azul,
Sei que é isto o que buscas com teus vodus
Que te permitem navegar nos mares das inconsequências!
- Ponho o passado de lado, esqueço as ofensas
Caso me dês a ventura de comigo compartilhar
Deste santuário que Druds congrega do mar
Da sabedoria terrena que lá dorme tão intensa!
- Eis que agora me propões a seara do absurdo!
És minha prisioneira, rainha das horas incertas,
Destinar-te-ei ao arcabouço das pseudo espertas
Até desvendar de ti este segredo que me é oculto.
Parasita estranha a demora de sua rainha
E vai à sua procura pelos bosques desconhecidos,
Ouve vozes abafadas em seus apurados ouvidos
E descobre que havia chegado ao final da linha.
Ameba fora algemada por correntes de prata,
Giárdia gargalhava de sua cruel desventura
E a internara nos porões das ingratidões impuras
Para ser jogada em precipícios de fatais cascatas!
III
Giárdia se concentra, chama pelo seu duende
Que com seu feitiço teria o poder de decifrar
O silêncio em que Ameba guardava em seu tear
De mulher astuta e que a tornava tão diferente.
O duende surge perante as incertezas de Giárdia
E mostra em visão o Cruzeiro do Sul tomado pela peste,
Giárdia se condói diante daquela ótica inconteste
E vai aos porões onde aprisionava as desgraças.
- Estou aqui novamente, Rainha perversa e insana,
Sei do teu real propósito nas estradas do espaço,
Teu povo agoniza sob a imprudência dos teus braços
E tu te aproveitas da ambição e os deixa na lama!
- Só em teu reino há a esperança da grande cura,
Pois, que lá dormem gênios únicos capazes de dissipar
A enfermidade que grassa em meu patamar
Que são as inteligências humanas sequestradas em tuas aventuras.
- És aproveitadora do destino de súditos inocentes
E queres juntar o útil ao agradável em tua jornada,
Só na mente do homem é possível tocar-se esta sonata
Para pôr um fim no sofrimento de tua gente.
- Então ? Abre teu coração para um povo sofredor
E permite-me comigo levar tão sonhado antídoto,
Assim ficará provado que não tens íntimo bandido
E que és capaz de uma atitude de amor!
- Falas-me como se eu desconhecesse tua astúcia,
Queres não somente a receita, mas também meu reino,
Mas não te permitirei pôr os pés em meu celeiro
Nem de usares da usura com tua argúcia.
- Livra-me destas correntes! Meu povo tem pressa,
Façamos um acordo real diante de nossos mundos,
Ofereço-te parte de minha riquezas de valor profundo
E muito mais de acordo com o que me peças.
-Assina este papel em que exijo que abdiques
Do teu reino para que eu possa o Cruzeiro do Sul governar,
Depois te libertarei noutras esferas e erigirei um altar
Em tua honra para que esquecida do povo não fiques.
IV
Ameba chorou sua vergonha perante sua assinatura no papel,
O tiro houvera saído pela culatra de sua ambição,
Perdera o reino e sua dignidade deixada naquela porão
Tornara sua vida um esdrúxulo pacote de fel.
Giárdia a libertou nas dimensões rochosas do nada
Onde não havia sol e a lua era apenas um sonho,
Parasita soube que seu destino medíocre e tristonho
Era castigo dos deuses às aspirações desenfreadas.
No Cruzeiro do Sul a epidemia teve um fim
E Giárdia coroou-se a si mesma perante a multidão,
Porém os dias e as noites trouxeram grande aflição
À Majestade que governava com austeridade e era ruim.
Parasita percorreu todas as veredas da atmosfera
E um dia localizou Ameba debruçada num penhasco,
Tomou-a nos braços e a fez reviver passo a passo
Cada centímetro dos desafortunados desejos que havia nela.
- Levar-te-ei a uma audiência com Amarelão
Que se tornou rei em Úrsula Menor recentemente,
Trava com ele um pacto que seja decente,
Porque teu povo sarou, mas vive em constante insatisfação.
- Tenho planos que farão Giárdia cair num abismo
E teu cetro emoldurará outra vez tua cabeça.
Contudo é fundamental que sejas humilde e não te esqueças
Que depois de tudo consumado quero que cases comigo!
Ameba sorriu sedutora e prometeu consentimento,
Casar-se-ia com Parasita e faria uma festança,
Todavia antes necessitaria de empunhar sua lança
E destinar Giárdia para sempre ao rio dos tormentos.
Amarelão recebeu Ameba com intensa pompa
E a fez sentir-se Majestade diante de sua dinastia,
Pedia à Tênia, sua secretária, que anotasse com euforia
Todos os detalhes de um acordo que a deixou tonta...
Parasita iniciou-se na execução dos seus planos
E se passou por enamorado pela secretária de Giárdia, Bactéria,
Assim desvendou sigilos que seriam a futura miséria
Daquele reino apócrifo, covarde e deveras desumano...
V
Epílogo
Amarelão contatou Giárdia e sugeriu negócios,
Ela o visitou em Úrsula Menor sem nada desconfiar,
Pôs sua assinatura em pactos de noites sem luar
E em dias de sol azedo para desfrutar do ócio.
Imensas dívidas Giárdia contraiu, com efeito,
E Parasita roubou segredos com falsos beijos,
Bactéria lhe entregou as chaves de todos os espelhos
E o Cruzeiro do Sul caía diante de objetivos perfeitos.
Dia após dia os cofres de Giárdia ficavam vazios
E até sua coroa de ouro teve de ser penhorada,
De repente se toca que não possuía mais nada
E o povo, com fome, causava em si fortes arrepios.
Grande tumulto assanhava a população em frente ao castelo
E uma chuva de pedras quebrava das janelas, os vitrais...
Exigiam alimentos e como selvagens e famintos animais
Invadiram aquele palácio, mas só encontraram farelos.
Giárdia fugira atônita em busca de socorro
Chegando em Úrsula Menor à procura de Amarelão,
Foi surpreendida por Ameba que cantava no salão
A sua desdita em labaredas de alto fogo!
Tentou dali escapulir, no entanto foi presa por correntes de aço
E levada sem piedade ao rio de todos os tormentos,
O duende apareceu e disse ter modificados os sentimentos
Porque fora vencido pela decepção e pelo cansaço...
Ameba foi ovacionada pela alegria do seu povo
E subiu ao trono distribuindo felicidade e fartura,
Sede de amar era agora o lema de sua aventura
E transformar seu reino para tudo parecer lindo e novo!
Amarelão segurou a mão de Ameba levando-a ao altar,
Tênia empurrou Parasita para bem diante dos deuses,
Partiram rumo à lua de mel debaixo dos adeuses
Que acenavam ventura para as conquistas de além-mar!
Por herança Druds caiu sem equívocos em suas mãos
E o Planeta Azul trouxe em si o doce devaneio
De adquirir o conhecimento humano que veio
Ratificar a metamorfose que se operara em seu coração!
FIM
sábado, 2 de novembro de 2013
A Vida Continua...
A vida Continua...
CAPÍTULO III
Três meses à frente. Com bastante trabalho, os advogados conseguiram, finalmente, desvendar o cartório onde Marco Aurélio houvera sido registrado. Pediram o registro e, dele, várias cópias. Deram entrada na Justiça ao pedido de adoção e diversas audiências aconteceram. O que se buscava nessas audiências? Tinham como objetivo tentar descobrir
parentes do garoto, mas, até então, tudo fora infrutífero. Só na sexta audiência, após percorrerem várias estradas, localizaram senhor Manoel, ex-amigo de Alexandre, pai de Desdêmona. Velho, porém ainda lúcido, senhor Manoel fora levado à audiência, pois, ele como avô de Marco, tinha em si, em primeiro direito, a prerrogativa de ficar com o menino, contudo essa não foi sua disposição.
- Não posso ficar com ele - disse - além de estar quase caduco, faltam-me condições financeiras para dar-lhe uma boa educação. Definitivamente, não posso tê-lo em minha companhia.
- Sendo assim - afirmou o Juiz - aceitarei a solicitação do Senhor Flávio Vasconcelos que deseja adotá-lo.
- Pois que se cumpra a vontade deste senhor - dispôs senhor Manoel - além do mais, não sou verdadeiramente avô deste jovem...
- Como não, vô ? - Indagou Marco Aurélio sem compreender o que Senhor Manoel afirmava - como pai de meu pai Fabian, o senhor é meu avô, sim...
- Essa é uma longa história - confirmou senhor Manoel - Fabian não era seu pai, na realidade. Você foi doado a Desdêmona e Fabian para ser registrado por eles como filho verdadeiro.
- Quem foram esses doadores? - Interrogou Marco.
- Seus verdadeiros pais: Esmengarda e Alexandre.
- Então, ao invés de ser filho de Desdêmona, eu sou irmão dela - asseverou Marco.
- Exatamente - concordou senhor Manoel.
- Mas... por que agiram dessa forma ? – Indagou Marco, impaciente.
- Porque Desdêmona não podia engravidar, logo doaram você assim que nasceu. Foi um ato de amor de Esmengarda e Alexandre a Desdêmona e Fabian.
- Moisés, então, era meu irmão e não tio...
- Está decepcionado ? - Perguntou senhor Manoel.
- Nem sei o que dizer – respondeu Marco - estou é surpreso, porém, decepcionado, nunca... sim, foi um ato de muito amor... muito amor...
Dizia e enxugava as lágrimas com a ponta da camisa.
- Compreendo tudo. Não tenho mais parente de sangue vivo... Mas acabo de ganhar uma família. Estou bastante feliz. Por favor, senhor Juiz, conceda a Flávio Vasconcelos minha adoção. Amo a ele, sua esposa e meu irmão, Lucas. Deus me abençoou...
Assim foi feito. Marco Aurélio até pediu para adotar o sobrenome Vasconcelos, no que foi prontamente atendido. Todos saíram do fórum sorridentes e felizes. Imediatamente se dirigiram à escola onde Lucas estudava, ali Marco Aurélio igualmente estudaria. Foi feita a matrícula numa série inferior a de Lucas, no entanto tal fato pouco importava, o que interessava mesmo era que o jovem já pertencia oficialmente à família, era irmão de Lucas e filho de Flávio e Margarida, tão quanto o próprio Lucas. Marco Aurélio contara em que escola houvera estudado e para lá rumaram em busca de sua documentação de transferência. O diretor do estabelecimento, professor Juvenal, parabenizou-o.
- Que bom, Marco. Você está vivo e ganhou uma família, isso é tão importante! Meus sinceros parabéns e que Deus ilumine você e seus novos familiares.
- Grato, professor. Deus também o ilumine.
Agora eram dois a se acordarem cedo para ir à escola. A condução ganhara mais um passageiro. Marco precisou de empenhar-se bastante nos livros, porque o nível daquela escola era alto, muito puxado, todavia como inteligente que era, venceu facilmente esses obstáculos. Sua relação com Flávio, Margarida e Lucas era de profundo amor.
Sábado. Festa na escola. O aniversário de fundação do colégio foi comemorado com um grande baile que se iniciou às 20 horas. Havia muita gente, quase todos os alunos compareceram e ainda levaram seus convidados. A festa prometia. Marco ficou visivelmente encantado com Pollyanna, uma garota que ali estava a convite dos amigos e que, por sua vez, também se impressionara com Marco.
- Vamos dançar ? - Pediu Marco.
- Sim, é um prazer! - disse a moça.
Dançaram a noite inteira, não se largaram mais. Beijaram-se, trocaram carícias e Marco perguntou.
- Onde você mora?
Pollyanna forneceu-lhe o endereço. A festa acabara, porém Marco não tirou Pollyanna da cabeça. Na primeira oportunidade que teve, foi vê-la em sua casa num dia à tarde, pois, não saía à noite e, nos fins de semana, estava fora, com a família.
- Posso subir? -Perguntou Marco.
- Estou só em casa, mas pode...
E, ambos sozinhos, deixaram-se levar pela ousadia dos sentimentos e tudo aconteceu...
Pollyanna também conhecera Lucas e, da mesma maneira, impressionara-se com ele. Igualmente a Marco, tinha Lucas em suas mãos. Só que Lucas não imaginava que Marco se relacionara tão intimamente com Pollyanna. Nem mesmo desconfiava que havia namoro entre eles e se deixou seduzir pela moça. Encontrou-a da mesma forma em sua própria habitação , Pollyanna, estando outra vez sozinha, entregou-se por completo a Lucas Vasconcelos.
Pollyanna namorava a ambos. Conseguia despistar um do outro e, em horários distintos, consumia-os. Na verdade, estava indecisa em relação aos dois jovens... Lucas ou Marco? Esta dispunha-se a ser sua grande dúvida. Conscientemente sabia que haveria de decidir-se por um deles, entretanto quando por um se decidia, o outro chegava em sua mente. Não conseguia escolher! Estava apaixonada por ambos... Assim levou por algum tempo,
mas houve um momento que não deu para livrar-se dos dois ao mesmo tempo. Foi no dia do seu aniversário. Lucas e Marco, apegadíssimos um ao outro, viram-se de repente envolvidos por numa situação que poderia manchar aquela amizade, aquele sentimento que os unia cada vez mais.
- O que você faz aqui, Marco? - Perguntou Lucas.
- Eu que pergunto: o que você faz aqui, Lucas ?
E se olharam, ambos, com os olhos molhados, pois, em seus íntimos, já desvendavam ser a mesma razão.
- Vim ver minha namorada - retrucou Lucas - hoje é o aniversário dela.
- Que coincidência! - afirmou Marco - eu também vim ver minha namorada, hoje é, da mesma forma, o aniversário dela.
- Qual o nome de sua namorada? - Questionou Lucas.
- Pollyanna! - disse Marco.
- Não pode ser... – frisou Lucas - Pollyanna é minha namorada...
Neste exato momento, Pollyanna aparece. De imediato entende o que se passa. Havia em si a consciência de que isto um dia aconteceria.
- Preciso explicar-me - disse - sou a culpada por isto. Eu namoro a ambos porque os amo do mesmo jeito. Não consigo escolher um...
Lucas e Marco se olharam. Tomaram a mesma decisão. Marco, que trazia um fino ramalhete, jogou-o no rosto da jovem... Lucas, que trazia consigo um presente, atirou-o ao chão.
- Esqueça –me a partir de hoje, Pollyanna - disse Lucas chorando - você não presta!
Marcos imitou-o.
- Vagabunda! Não me procure mais...
Aos prantos, Pollyanna interveio.
- Esperem! Tenho uma solução para este impasse - sugeriu - ficarei com um só dos dois, com aquele que vencer a luta. – Propôs.
- Que luta ? - Interrogou Marco.
- Proponho que vocês briguem, lutem e, aquele que vencer, fica comigo e eu só com este...
Lucas topou...
- Aceito, porém não pense que esta luta seja em sua frente, nós resolveremos em casa. O que aqui retornar será o vencedor e ficará com você. O que perder a esquece e se conforma.
- Concordo - disse Marco - aguarde o vencedor.
Partiram em silêncio. Grande angústia os dominava. No íntimo não deviam medir forças por uma garota que já demonstrara não possuir caráter e ambos sabiam que haviam si- do enganados. Chegaram em casa sem dizer palavra. Só em seus olhares se percebia o momento difícil que haviam de enfrentar. Os pais não estavam, tinham viajado a negócios e os garotos estavam sós. Cada qual ficou em si mesmo, no aguardo do instante em que uma conversa definitiva haveria de ocorrer. Esperaram anoitecer. Após o jantar e
logo que os empregados se foram, afinal, resolveram pôr em pratos limpos aquele desagradável incômodo.
- Então, Marco, ela é sua namorada? - Perguntou Lucas.
- Sim... e também é sua ?
- Sim, mas ela é minha...
- Nada disso, Marco - ele é minha.
- É minha!
- É minha!..- contestou Marco.
- Eu a beijei várias vezes - afirmou Lucas.
- Ah, eu também por diversas vezes a beijei. – confessou Marco.
- Eu tive relações íntimas com ela – Lucas disse.
- Grande coisa! - debochou Marco - Eu a tive, igualmente.
Chegaram junto um do outro. Choravam... Ironicamente Lucas passou a mão pelo rosto de Marco. Este devolveu, provocantemente... Lucas foi para cima de Marco, agarrou-o, esbofeteou-o no tórax, várias vezes. Marco livrou-se do golpe e o prendeu entre as pernas, espancando-o nas costas, depois no tórax. Lucas conseguiu escapar e o atacou pelas costas, esmurrando-o, repetidamente. Ambos caíram e rolaram pelo chão, abraçados e tentando atacar-se mutuamente. Lucas fugiu, empurrando-o para longe, Marco foi ao seu
encalço. A luta estava eletrizante, contudo, nos golpes que davam, embora fortes, havia um tremendo respeito dos dois lados para que um não machucasse o outro.
- Chega! - gritou Lucas - estamos brigando por uma causa pedida - Eu amo a Pollyanna, mas muito maior é o que sinto por você...
A estas alturas, estavam ambos rasgados, sujos, com marcas de mãos em seus corpos.
- Realmente - replicou Marco – sejamos prudentes. Muito mais forte é o que existe em meu coração em relação a você. - Confessou Marco - vale a pena, Lucas, levar adiante uma luta por alguém que não nos merece ?
Lucas Vasconcelos não deu resposta. Apenas sorriu. Depois despiu-se totalmente , colocou as vestes rasgadas sobre uma cadeira da piscina e caiu na água. Marco o imitou. Despiu-se, juntou àquele vestuário esfarrapado , suas roupas, no mesmo lugar onde Lucas pusera as dele e também caiu na água.
- Não - disse Lucas - é claro que não vale a pena. Nunca valerá...
Brincaram na piscina até 3 horas da manhã. Saíram. Com as roupas imprestáveis se enxugaram e entraram em casa. Foram direto para o quarto e adentraram ao mesmo tempo no chuveiro e tomaram um banho de verdade. Estavam em silêncio e com uma enorme vontade, ambos, de se abraçarem e apagar de suas mentes aquela luta que tiveram. Finalmente aconteceu o abraço, choraram um no ombro do outro. O restante da
madrugada foi criança para a intensidade de sentimentos que os envolveu. Nunca mais haveriam de esquecer aqueles instantes, momentos que seriam guardados para sempre em suas memórias.
FIM DA CAPÍTULO III
CAPÍTULO III
Três meses à frente. Com bastante trabalho, os advogados conseguiram, finalmente, desvendar o cartório onde Marco Aurélio houvera sido registrado. Pediram o registro e, dele, várias cópias. Deram entrada na Justiça ao pedido de adoção e diversas audiências aconteceram. O que se buscava nessas audiências? Tinham como objetivo tentar descobrir
parentes do garoto, mas, até então, tudo fora infrutífero. Só na sexta audiência, após percorrerem várias estradas, localizaram senhor Manoel, ex-amigo de Alexandre, pai de Desdêmona. Velho, porém ainda lúcido, senhor Manoel fora levado à audiência, pois, ele como avô de Marco, tinha em si, em primeiro direito, a prerrogativa de ficar com o menino, contudo essa não foi sua disposição.
- Não posso ficar com ele - disse - além de estar quase caduco, faltam-me condições financeiras para dar-lhe uma boa educação. Definitivamente, não posso tê-lo em minha companhia.
- Sendo assim - afirmou o Juiz - aceitarei a solicitação do Senhor Flávio Vasconcelos que deseja adotá-lo.
- Pois que se cumpra a vontade deste senhor - dispôs senhor Manoel - além do mais, não sou verdadeiramente avô deste jovem...
- Como não, vô ? - Indagou Marco Aurélio sem compreender o que Senhor Manoel afirmava - como pai de meu pai Fabian, o senhor é meu avô, sim...
- Essa é uma longa história - confirmou senhor Manoel - Fabian não era seu pai, na realidade. Você foi doado a Desdêmona e Fabian para ser registrado por eles como filho verdadeiro.
- Quem foram esses doadores? - Interrogou Marco.
- Seus verdadeiros pais: Esmengarda e Alexandre.
- Então, ao invés de ser filho de Desdêmona, eu sou irmão dela - asseverou Marco.
- Exatamente - concordou senhor Manoel.
- Mas... por que agiram dessa forma ? – Indagou Marco, impaciente.
- Porque Desdêmona não podia engravidar, logo doaram você assim que nasceu. Foi um ato de amor de Esmengarda e Alexandre a Desdêmona e Fabian.
- Moisés, então, era meu irmão e não tio...
- Está decepcionado ? - Perguntou senhor Manoel.
- Nem sei o que dizer – respondeu Marco - estou é surpreso, porém, decepcionado, nunca... sim, foi um ato de muito amor... muito amor...
Dizia e enxugava as lágrimas com a ponta da camisa.
- Compreendo tudo. Não tenho mais parente de sangue vivo... Mas acabo de ganhar uma família. Estou bastante feliz. Por favor, senhor Juiz, conceda a Flávio Vasconcelos minha adoção. Amo a ele, sua esposa e meu irmão, Lucas. Deus me abençoou...
Assim foi feito. Marco Aurélio até pediu para adotar o sobrenome Vasconcelos, no que foi prontamente atendido. Todos saíram do fórum sorridentes e felizes. Imediatamente se dirigiram à escola onde Lucas estudava, ali Marco Aurélio igualmente estudaria. Foi feita a matrícula numa série inferior a de Lucas, no entanto tal fato pouco importava, o que interessava mesmo era que o jovem já pertencia oficialmente à família, era irmão de Lucas e filho de Flávio e Margarida, tão quanto o próprio Lucas. Marco Aurélio contara em que escola houvera estudado e para lá rumaram em busca de sua documentação de transferência. O diretor do estabelecimento, professor Juvenal, parabenizou-o.
- Que bom, Marco. Você está vivo e ganhou uma família, isso é tão importante! Meus sinceros parabéns e que Deus ilumine você e seus novos familiares.
- Grato, professor. Deus também o ilumine.
Agora eram dois a se acordarem cedo para ir à escola. A condução ganhara mais um passageiro. Marco precisou de empenhar-se bastante nos livros, porque o nível daquela escola era alto, muito puxado, todavia como inteligente que era, venceu facilmente esses obstáculos. Sua relação com Flávio, Margarida e Lucas era de profundo amor.
Sábado. Festa na escola. O aniversário de fundação do colégio foi comemorado com um grande baile que se iniciou às 20 horas. Havia muita gente, quase todos os alunos compareceram e ainda levaram seus convidados. A festa prometia. Marco ficou visivelmente encantado com Pollyanna, uma garota que ali estava a convite dos amigos e que, por sua vez, também se impressionara com Marco.
- Vamos dançar ? - Pediu Marco.
- Sim, é um prazer! - disse a moça.
Dançaram a noite inteira, não se largaram mais. Beijaram-se, trocaram carícias e Marco perguntou.
- Onde você mora?
Pollyanna forneceu-lhe o endereço. A festa acabara, porém Marco não tirou Pollyanna da cabeça. Na primeira oportunidade que teve, foi vê-la em sua casa num dia à tarde, pois, não saía à noite e, nos fins de semana, estava fora, com a família.
- Posso subir? -Perguntou Marco.
- Estou só em casa, mas pode...
E, ambos sozinhos, deixaram-se levar pela ousadia dos sentimentos e tudo aconteceu...
Pollyanna também conhecera Lucas e, da mesma maneira, impressionara-se com ele. Igualmente a Marco, tinha Lucas em suas mãos. Só que Lucas não imaginava que Marco se relacionara tão intimamente com Pollyanna. Nem mesmo desconfiava que havia namoro entre eles e se deixou seduzir pela moça. Encontrou-a da mesma forma em sua própria habitação , Pollyanna, estando outra vez sozinha, entregou-se por completo a Lucas Vasconcelos.
Pollyanna namorava a ambos. Conseguia despistar um do outro e, em horários distintos, consumia-os. Na verdade, estava indecisa em relação aos dois jovens... Lucas ou Marco? Esta dispunha-se a ser sua grande dúvida. Conscientemente sabia que haveria de decidir-se por um deles, entretanto quando por um se decidia, o outro chegava em sua mente. Não conseguia escolher! Estava apaixonada por ambos... Assim levou por algum tempo,
mas houve um momento que não deu para livrar-se dos dois ao mesmo tempo. Foi no dia do seu aniversário. Lucas e Marco, apegadíssimos um ao outro, viram-se de repente envolvidos por numa situação que poderia manchar aquela amizade, aquele sentimento que os unia cada vez mais.
- O que você faz aqui, Marco? - Perguntou Lucas.
- Eu que pergunto: o que você faz aqui, Lucas ?
E se olharam, ambos, com os olhos molhados, pois, em seus íntimos, já desvendavam ser a mesma razão.
- Vim ver minha namorada - retrucou Lucas - hoje é o aniversário dela.
- Que coincidência! - afirmou Marco - eu também vim ver minha namorada, hoje é, da mesma forma, o aniversário dela.
- Qual o nome de sua namorada? - Questionou Lucas.
- Pollyanna! - disse Marco.
- Não pode ser... – frisou Lucas - Pollyanna é minha namorada...
Neste exato momento, Pollyanna aparece. De imediato entende o que se passa. Havia em si a consciência de que isto um dia aconteceria.
- Preciso explicar-me - disse - sou a culpada por isto. Eu namoro a ambos porque os amo do mesmo jeito. Não consigo escolher um...
Lucas e Marco se olharam. Tomaram a mesma decisão. Marco, que trazia um fino ramalhete, jogou-o no rosto da jovem... Lucas, que trazia consigo um presente, atirou-o ao chão.
- Esqueça –me a partir de hoje, Pollyanna - disse Lucas chorando - você não presta!
Marcos imitou-o.
- Vagabunda! Não me procure mais...
Aos prantos, Pollyanna interveio.
- Esperem! Tenho uma solução para este impasse - sugeriu - ficarei com um só dos dois, com aquele que vencer a luta. – Propôs.
- Que luta ? - Interrogou Marco.
- Proponho que vocês briguem, lutem e, aquele que vencer, fica comigo e eu só com este...
Lucas topou...
- Aceito, porém não pense que esta luta seja em sua frente, nós resolveremos em casa. O que aqui retornar será o vencedor e ficará com você. O que perder a esquece e se conforma.
- Concordo - disse Marco - aguarde o vencedor.
Partiram em silêncio. Grande angústia os dominava. No íntimo não deviam medir forças por uma garota que já demonstrara não possuir caráter e ambos sabiam que haviam si- do enganados. Chegaram em casa sem dizer palavra. Só em seus olhares se percebia o momento difícil que haviam de enfrentar. Os pais não estavam, tinham viajado a negócios e os garotos estavam sós. Cada qual ficou em si mesmo, no aguardo do instante em que uma conversa definitiva haveria de ocorrer. Esperaram anoitecer. Após o jantar e
logo que os empregados se foram, afinal, resolveram pôr em pratos limpos aquele desagradável incômodo.
- Então, Marco, ela é sua namorada? - Perguntou Lucas.
- Sim... e também é sua ?
- Sim, mas ela é minha...
- Nada disso, Marco - ele é minha.
- É minha!
- É minha!..- contestou Marco.
- Eu a beijei várias vezes - afirmou Lucas.
- Ah, eu também por diversas vezes a beijei. – confessou Marco.
- Eu tive relações íntimas com ela – Lucas disse.
- Grande coisa! - debochou Marco - Eu a tive, igualmente.
Chegaram junto um do outro. Choravam... Ironicamente Lucas passou a mão pelo rosto de Marco. Este devolveu, provocantemente... Lucas foi para cima de Marco, agarrou-o, esbofeteou-o no tórax, várias vezes. Marco livrou-se do golpe e o prendeu entre as pernas, espancando-o nas costas, depois no tórax. Lucas conseguiu escapar e o atacou pelas costas, esmurrando-o, repetidamente. Ambos caíram e rolaram pelo chão, abraçados e tentando atacar-se mutuamente. Lucas fugiu, empurrando-o para longe, Marco foi ao seu
encalço. A luta estava eletrizante, contudo, nos golpes que davam, embora fortes, havia um tremendo respeito dos dois lados para que um não machucasse o outro.
- Chega! - gritou Lucas - estamos brigando por uma causa pedida - Eu amo a Pollyanna, mas muito maior é o que sinto por você...
A estas alturas, estavam ambos rasgados, sujos, com marcas de mãos em seus corpos.
- Realmente - replicou Marco – sejamos prudentes. Muito mais forte é o que existe em meu coração em relação a você. - Confessou Marco - vale a pena, Lucas, levar adiante uma luta por alguém que não nos merece ?
Lucas Vasconcelos não deu resposta. Apenas sorriu. Depois despiu-se totalmente , colocou as vestes rasgadas sobre uma cadeira da piscina e caiu na água. Marco o imitou. Despiu-se, juntou àquele vestuário esfarrapado , suas roupas, no mesmo lugar onde Lucas pusera as dele e também caiu na água.
- Não - disse Lucas - é claro que não vale a pena. Nunca valerá...
Brincaram na piscina até 3 horas da manhã. Saíram. Com as roupas imprestáveis se enxugaram e entraram em casa. Foram direto para o quarto e adentraram ao mesmo tempo no chuveiro e tomaram um banho de verdade. Estavam em silêncio e com uma enorme vontade, ambos, de se abraçarem e apagar de suas mentes aquela luta que tiveram. Finalmente aconteceu o abraço, choraram um no ombro do outro. O restante da
madrugada foi criança para a intensidade de sentimentos que os envolveu. Nunca mais haveriam de esquecer aqueles instantes, momentos que seriam guardados para sempre em suas memórias.
FIM DA CAPÍTULO III
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