terça-feira, 11 de março de 2014

Morrer para Viver

Meu corpo ali em câmara ardente
E eu aqui a contemplar o sono
Que o levará à campa sem outono
Na magia da metamorfose indiferente.

Estou liberto... Abandonei o fardo
Que me fez escravo das ilusões da matéria,
Agora posso flutuar pela vida etérea
Sem os vícios travestidos de hábitos.

Olho-me sereno e já não sou carente,
Sinto o pleno exercício da mente
Que tudo vê e escuta sem muralhas...

Lágrimas? Não! Saudade é meu sorriso
Que contrasta quem se lamenta consigo

Da solidão aparente que não me atrapalha!

Seara dos Umbrais

Observo uma estiagem de amor sobre a terra,
A chuva refugiou-se entre nuvens e mormaço,
Sentimentos que não afloram, parecem de aço
E a vida é intenso enigma que nos atropela.

A dor é massacre que veste uma arena seca,
O orvalho cambaleia entre planícies e planaltos,
A última lágrima evaporou-se ao cair no asfalto
E na oficina da vida não há remorso que rejuvenesça.

O pássaro quando canta extravasa sua tristeza
E na natureza tétrica espera-se que tudo pereça
Mediante holocausto do último suspiro da agonia...

Na salinidade marinha peixes sofrem de pressão alta,
No cosmos os astros apagaram as luzes da ribalta

E o universo se afunila no estertor da utopia!

segunda-feira, 10 de março de 2014

Você se foi... Tu chegaste!

Esperei tanto por ti,
Tantas vezes disse: “te amo”,
Chorei tua ausência, desfiz planos
E ainda hoje zombas de mim...

Meus olhos atônitos ficavam quando te viam
E meu coração disparava alucinado,
Um arrepio era o sinal desesperado
Dos desejos sequiosos de ter-te que me consumiam...

Naveguei pelos braços de uma esperança sem retorno
E me senti só a enxugar-me as lágrimas da madrugada,
Outra vez o sol brilhava anunciando uma alvorada
Que me trazia o desdém de ver-me abandonado de novo...

Durante meses aguardei eclodir tua paixão,
Pois de tua boca escutei que me amavas,
O tempo voou e pela brisa insólita que me enganavas
Destruíste o flúor que fecundava de amor meu coração.

Quantas vezes ansiei por teu abraço...
Quantas vezes sonhei dormir em teu peito...
Agora choro a amargura do devaneio desfeito
E no único beijo não te beijei, beijei o espaço...

A vida é linear e tudo segue em frente,
O mundo gira ao redor de nós e vêm outras etapas,
Na face do passado arquivam-se as velhas capas
Para que no futuro tudo possa vivificar diferente...

Donde menos esperava um novo amor surgiu,
Entregou à paciência o momento certo de vir à tona,
Perspicaz foi se aproximando demarcando zona
E no instante oportuno deu o bote e me seduziu...

Disse o clichê: a pressa é inimiga da perfeição,
Aventurar-se no escuro é perder de vista o objetivo,
Na agonia em que estavas poderia ser vão meu tiro,
Então decidi chegares ao desfecho de tua aflição.

Quando me viu acabrunhado a sofrer pelos cantos,
Teve a certeza de que a solidão me maltratava,
Assim chegou de mansinho, confessou que me amava
E me presenteou com o beijo que ofuscou meus desenganos...

Levou-se à velha casa onde vivera com seus avós
E se pôs a acariciar-me o corpo com ternura,
Desnudou-se e me vi perante uma nudez tão pura
Que de agora em diante sei que jamais estarei só...

Não posso ainda dizer que amo esta criatura profundamente,
Contudo estou consciente de que a felicidade bateu à minha porta,
Entrego-me ao recente sentimento e nada mais importa
A não ser usufruir de uma existência que não me é indiferente...

Sobre uma cama macia permito-me consumar o ardor
Que busquei sem resposta na pessoa errada,
Viajo no êxtase das carícias e não penso mais nada,
Já que desnudos e sem fantasias, saboreamos do amor!

Ivan de Oliveira Melo

domingo, 9 de março de 2014

Olhos que falam...



Tornaste-te meu vício,
Agora vivo num precipício
Ora de paixão, ora de amor...

Dizem que a paixão cega...
Creio, pois, não te entregas
Ao meu fogo tresloucado de ardor...

Na volúpia que me consome
Só em ti quero conjunção
Num viço de coração pra coração
Para que eu possa seduzir teu nome...

Não me escondo, tudo está às claras,
Só teu olhar não quer perceber
A mensagem de tesão e de prazer
Que meus olhos não olham... falam!


Corolário das Ideias



Não quero congestionar o trânsito das ideias,
Chega de pensamentos fúteis e poposudos,
Frivolidades já me consumiram do tudo,
Agora sou requinte, abaixo nuances plebeias!

Torno-me vigário do todo que mentalizo,
Anulo passaportes vindos do inconsciente,
Ser astuto é meu dogma, faleceu o demente,
Não mais espero ouvir de mim qualquer aviso.

Resgato-me das inconstâncias, dos bueiros que caí,
Traço estradas de esperteza para a partir daí
Transformar-me consultor de doutrinas inteligentes...

O mundo está caótico, a vida exige reflexão,
Enfadaram-se estratagemas controlados pela emoção
E quem não singularizar atitudes é inconsequente!

Oráculo Íntimo



Todo ser humano tem um oráculo em si,
Às vezes prudente, muitas vezes analfabeto,
Pois, mira o mundo desejando ser esperto,
Mas a fofoca o derruba devido ao seu ti,ti,ti...

A sabedoria é prenha e caminha lado a lado
De qualquer cidadão que dela queira usufruir,
Mas os pensamentos quadrados não sabem refletir
E permitem que a cobiça baile em seu roçado...

Humildade é prêmio para quem busca reter
O conhecimento e, no silêncio, dele ter o prazer
De comungar benefícios em prol da sociedade...

Vitórias para o mundo é a mente que o juízo divulga
As peripécias do saber sem matutar em fuga
A fim de que o bem seja idílio na eternidade!

Extrativismo Pessoal



Distantes de mim deixo as ofensas,
Assim liberto-me de minha escravidão,
Gritos de alegria são tiros de canhão,
Pois, viver, por pior que seja, é recompensa.

Afasto de mim o que não me atrai,
Assim liberto-me do algoz hipocrisia,
Sorrio para o mundo sem ser fantasia,
Pois, a tristeza fica enferma e se esvai.

Dissipo de mim os genes da preguiça,
Assim o esforço flui, o trabalho não enguiça,
Então me seduzo por talentos sem sentir dor...

Luto e excluo de mim vírus e doenças,
Assim tenho corpo saudável e cabeça que pensa
Sempre na melhor maneira de servir com amor!