terça-feira, 4 de março de 2014

Audição Nefasta



Sinto-me incomodado com o barulho da metrópole,
Meus tímpanos já não captam sons refinados,
São estridentes ruídos de átomos manipulados
Pela verve poluente que marcha homicida a cada trote.

Áudios que gritam em carnaval fora de época
Manietando hediondos instrumentos os mais diversos,
Carnívora surdez se instala em pontos vários do universo
Transformando os ouvidos humanos em fantoches bonecas.

Sonoplastia que deixa a sensibilidade refém
Da criatividade onomatopaica que, com desdém,
Esbraveja ondas que perfuram acintosamente o cotidiano...

As aurículas envelhecem de forma descuidada e precoce,
Embora jovens, as criaturas já não escutam a própria tosse
E as palavras despencam zonzas em bueiros desumanos!

segunda-feira, 3 de março de 2014

Labirinto Atemporal


O mau tempo a tudo corrói,
Malogradas se tornam as esperanças,
Carcomidas e inúteis as lembranças
Dum passado em que nunca fui herói.

Pensamentos obscuros diluem o bem
Deixando preso o pretérito que se afoga
Num túnel movediço onde não há horas
E o presente se configura suposições também.

Raciocínios se partem por falta de convicção,
As palavras são delírios isentas de emoção
E o tudo é nada... o nada sempre é tudo!

O futuro é ar que a consciência estoura,
A vida se propõe vegetativa e sem lavoura
Num solo árido em que respirar é distúrbio!

Regresso



Com a alvura do dia despertei
E olhei para janela meio sonâmbulo,
Vi tua imagem por todos os ângulos,
Pois, foste a única mulher que amei!

Que tolo eu sou...! Remoer o passado!
Entendo que entre nós não há mais nada,
O destino cruel levou-te por outras estradas
E não posso cultivar em mim teu retrato.

Hum... do lado de fora sei que há um mar
Cheio de mulheres loucas para me amar
E escreverem em minhas páginas seus nomes...

Ah... o que o tempo ira, também devolve,
Eis que vejo em minha porta teu automóvel
E tu a entrares dizendo: “És meu único homem!”

domingo, 2 de março de 2014

Termômetros



Não sou ilha, sou oceano,
Tenho braços de mar, pernas de rio,
Afluentes nada brandos, mas bravios
Nas imensas águas de perigo insano.

Não sou ventos, sou procelas,
Tempestades que varrem a natureza morta,
Intensos tornados idiotas que denotam
A fúria de machos que seduzem donzelas.

Não sou fagulhas, sou fogo em labaredas
Que não atua míope sobre as incertezas
E que não quer ao relento lágrimas de infelizes...

Não sou trevas, sou archotes de luz
E se o dedo na ferida com amor eu pus
É porque no tempo farei sanar a dor das cicatrizes!

sábado, 1 de março de 2014

Princípios



Evangélico no nome.
Católico na cara.
Espírita por atração.

De cada doutrina tomo do que me apetece...
Quando discordo, meu eu esquece
E, assim, vou dogmatizando minha religiosidade.

Meus fins justificam meus meios,
Sou filosofia para meus princípios,
Sou sociologia por educação,
Mas no fundo, profundo cristão...

A matéria é meu silêncio,
Não entro em contravenção...
Minha espiritualidade é secular
E minha divindade é um Só!

Liberto-me de fanatismos,
Em minhas preces não há ladainhas,
Recuso-me a mediunismos de carochinhas
E centro o pensamento no Engenheiro-mor!

Então vivo, não deslizo...
Não tenho proibições, tenho raciocínio,
Não me apego a mistérios,
Por si só a vida é um enigma...

Fé é uma questão de conhecimento,
Crença cega é deslumbramento...
Assim educo minha razão
Para que a paz seja dom do meu coração!

Cidade dos Mortos

CIDADE DOS MORTOS
-Crônica-

Padecia eu de um mal incurável de acordo com a ótica da ciência. Havia estado durante algum tempo interno num hospital público que, apesar de público, prestara-me bons serviços. O diálogo médico chegara ao fim: eu estava em estado terminal e o aconselhamento fora para que o meu falecimento se desse em casa, pois, haveria de ter mais conforto e o desenlace seria mais tranquilo. Contudo, possuía eu ainda consciência.
Intimamente intenso desespero acometia-me. As horas não corriam, os dias eram intermináveis. Refleti na vida que levara e me descobri possuidor de inúmeros pecados, precisava de qualquer modo ser perdoado por Deus através de uma autoridade eclesiástica. Pedi para que me providenciassem um padre.
Atenderam-me. Veio até minha cabeceira um sacerdote meio idoso e, a ele, narrei minhas turbulências, sem de nada esquivar-me. O homem de batina escutou-me com atenção e, posteriormente, abençoou-me, dizendo que o Senhor dos Exércitos
havia dado o perdão. Fez referência às preces e me solicitou que rezasse bastante, haja vista que um mundo de luzes e alegrias estaria à minha espera. Agradeci, todavia percebi que faltava alguma coisa que não saberia apontar. Minha insatisfação prosseguia.
Insatisfeito e profundamente deprimido, via os dias lentamente se escoarem. Tomei outra decisão: implorei para que me conseguissem um pastor evangélico, eu necessitava igualmente ser perdoado e ouvido por uma outra doutrina. Não demorou muito e logo se encontrava diante de mim um reverendo ainda jovem, mas que me impôs uma condição: eu teria que levantar as mãos e aceitar Jesus como único Salvador. Não dei importância ao fato e fiz conforme o pastor desejava. Fez muitas preces em torno de mim, leu várias passagens bíblicas, cantou diversos hinos e me preparou para o passamento, afirmando que eu dormiria em paz até a consu-
mação dos séculos, porém depois estaria para sempre ao lado do Senhor como um dos escolhidos. Também agradeci, no entanto a ausência de algo notada na visita do sacerdote permanecia. Difícil era explicar, compreender de que se tratava.
Os dias continuavam monótonos, a depressão era o resultado do meu estado psíquico. Era latente minha indisposição em aceitar tudo aquilo. Prometeram-me a morte e, ao meu ver, a mesma parecia distante dos meus anseios, de minha vida. Plenamente revoltado com o dissabor de ver-me acoplado a um catre, roguei que me trouxessem um representante da doutrina espírita, talvez em suas palavras e ensinamentos, afinal pudesse acalmar meu espirito tão conturbado. Perante mim estava uma senhora: nem jovem, nem idosa, de meia idade. Pertencia a um centro Kardecista. Contei-lhe sobre minha existência, a respeito das minhas faltas e
educada e atenciosamente me escutava. Revelou-me os planos de Deus concernente às vidas sucessivas e me orientou no sentido de que não me preocupasse. Haveria eu de retornar num outro corpo e, assim, resgatar todos os meus erros até a época em que não mais teria a necessidade de encarnar sobre a terra, porque mundos mais evoluídos me aguardavam num futuro próximo. Fez-me outras preleções e me aconselhou a ler a fim de que me educasse no concerto das verdades universais.
Deixou-me linda mensagem e um pouco de paz, entretanto não atingiu suprir o vácuo que teimava em aborrecer-me, sem que ninguém conseguisse desvendá-lo. E, mais uma vez, vi-me diante do tempo, diante de um tempo inexplicável, que não corria, nem voava, marchava calmamente. Descobri-me mais forte e disposto, era incompreensível que estivesse tão enfermo a ponto de haver sido desenganado pela Medicina. Revoltei-me. Sugeri que me encaminhassem devotos de outras religiões, seitas, fosse lá o que fosse. Então tive visitas de busdistas, maometanos, judeus e uma infinidade de outros religiosos. Nenhum obteve o êxito de
preencher a lacuna que dentro de mim havia, não obstante meu cérebro trabalhar, pensar... Formulava questões e as respondia. Foi assim que dissipei finalmente o mal: eu queria viver! Nada em mim existia, eu era capaz e cheio de saúde e, até hoje, após muitos anos desses acontecimentos, trabalho e tenho uma vida normal, em conformidade com minha idade. Hoje estou realizado e feliz. Nada mais!

Contrastes



A vida não vive em mim,
Apenas me tolera...
Mas eu vivo a vida
Saltando crateras
Que parecem não ter fim...

O mundo não me curte,
Somente me faz respirar...
Mas eu curto o mundo
Caminhando devagar
Pelas veredas que me nutrem...

O tempo não me sente,
Apenas me faz envelhecer...
Mas eu sinto o tempo,
A ele em tudo sou prazer,
Para ele sou um presente...

O sonho não me é esperança,
Somente consola meu passado...
Mas eu sou esperança de um sonho
Que arquiteta um futuro dourado
Para devaneios trazidos da infância...

O amor não me é afeição,
Apenas circunstancialmente me suporta...
Mas eu sou afeição para um sonho,
Pois sou carinho de uma aorta
Que nocauteia de amor meu coração!