quarta-feira, 6 de julho de 2016

NÚPCIAS

Meu poema chorou com intensa força emotiva
E eu dentro de um vagão compreendi sua dor,
É que havia eu feito extraordinária foto do amor
Que, de tão sublime, fez estremer a locomotiva.

Da janela onde estava pude ver flores no campo
E animais que corriam no zigue-zague da alegria,
Um sol ameno brilhava e doirava minha fantasia
E, em grande esplendor, houve de poesia, tanto!

As lágrimas do poema contagiaram do trem, todos…
Até os trilhos tremeram, pareceram-me meio tolos
Perante o verde destacado no pomar das letras!

Sensibilidade aflorada num momento só de astúcias,
Pois entendi que eu a poesia estávamos em núpcias
Diante dum casamento onde não havia retretas!



DE  Ivan de Oliveira Melo

segunda-feira, 4 de julho de 2016

PARAÍSO IMPESSOAL

A solidão é a cartilha do conhecer-se…
Nela, há um alfabeto deveras especial
E o silêncio contacta o transcendental
Num diálogo etéreo íntimo, sem lazer.

Quem se ama na solidão sem reservas,
Subtrai de si o extrato da compreensão
Que vagueia num espaço de contramão
Até que se entenda o paladar das ervas.

No universo solitário cada qual tem dote,
É necessário apenas ser bom sacerdote
Para que sua homilia pessoal seja clara…

O que busca na solidão uma vida eterna
Certamente é um mentecapto de caverna
Que jamais logrará a felicidade das araras!




DE Ivan de Oliveira Melo

domingo, 3 de julho de 2016

DESTINO

Ando que ando.
Canso que canso.
Tropeço.
Dou a mão direita
À esquerda.
Levanto-me.
Cambaleio.
Aprumo o corpo,
Sigo o destino.

Lá adiante.
Nova queda.
Sinto-me mais fraco,
Mesmo assim
Repito o ritual.
Estou de pé outra vez,
Mas o caminho é longo…
Desvendo árvores.
Descanso nas sombras.
Estou sujo e arranhado.

Suave brisa.
Meu rosto é acariciado
Pelo frescor do vento.
Ganho ânimo.
Vou em frente.
Tenho sede.
Abundante suor
Pinta meu corpo.
É o íntimo chorando
E pedindo arrego.
Não esmoreço.
Sou levado
Pela força de vontade.

Debaixo do sol escaldante
Minha caminhada
Torna-se um sacrifício.
A sede me devora.
A fadiga me arruína.
Perco as forças.
Desabo no solo seco.
Desmaio.
Longas horas sem sentidos.
Desperto ao anoitecer.
Os pássaros em busca
Do agasalho e eu
À procura do meu destino.
Tento levantar-me.
Estou só. Ninguém me vê…
Sem entender como,
Consigo aprumar-me.
Meio trôpego.
Dou alguns passos.
Chego a uma praça.
Está desolada como eu.
Descubro um banco.
Ali me deito. Desfaleço…

Desperto dia claro.
O sol desponta.
A passarada voa. Canta.
Dou-lhes bom dia.
Aos poucos o sol esquenta.
Imagino-me na mesma
Desilusão do dia anterior.
Sede. Fome. Exaustão!

Ando que ando.
Canso que canso.
Estou sem forças.
Preciso mendigar…
A quem? Tudo vazio!
Taperas trancafiadas.
Viva alma não aparece.
A solidão é companheira.
A solidão é meu arrimo.
A solidão é meu prêmio…

Dados alguns passos,
Vejo uma porta aberta.
Uma senhora sentada
A olhar em derredor.
Será que espera alguém?
Bato. Ela olha para mim
Bem dentro dos meus olhos.
Reconhece-me. Levanta-se.
Vem ao meu encontro.
Abraça-me.
Beija-me o rosto ferido.
Aperta minhas mãos…

Algum tempo depois,
Fala-me, sussurrando.
“Ainda bem, querido.
Já não suportava mais
Tanta saudade.
Finalmente você chegou.
Aqui no astral tudo é diferente.
Não há fome, nem sede.”
Eu estava morto... E não sabia!
                                                                 DE  Ivan de Oliveira Melo

sábado, 2 de julho de 2016

DESCRIÇÕES

Apalpo o tempo.
Navego no sol.
Tosto-me na chuva.
Falo mentiras
Que são verdades.
Gargalho no ódio.
Pranteio na alegria.
Estou só na multidão.
Ando sentado.
Durmo em pé.
Falo verdades
Que são mentiras…

Sou morte na vida.
Sou amigo do inimigo.
Sou santo pecador.
Escrevo sem tinta.
Leio páginas em branco.
Jogo cartas sem baralho.
Nado na areia.
Caminho na água.
Sou dinheiro sem valor.
Estou limpo na sujeira.
Falo grego em português.
Converso em silêncio.
Estudo sem livros.

Sou nada em tudo.
Estou mudo na fala.
Sou surdo com audição.
Cego com boa visão.
Dentro da falsidade
Sou mais que honesto.
Somo onde há subtração.
Divido onde há produto.
Fumo cigarro apagado.
Sou atleta sem jogar.
Confidente sem confessor.
Sou rio sem águas.
Sou água sem mar.
Sou o começo do fim
E o fim dos objetivos.

Estou belo dentro do feio.
Horrível dentro da beleza.
Sou dia em plena noite
E madrugada em pleno dia.
Sou sombra do meu vulto
E oração das pornografias.

Sou tudo isso e muito mais…
Contudo não sou delinquente,
Sou gente, sou vida…
Sou poeta!


DE Ivan de Oliveira Melo

sexta-feira, 1 de julho de 2016

ATMOSFÉRICO

Tudo me parecia azul: o mar, as estrelas, o céu…

De repente, nuvens carregadas mudaram a paisagem
E intensa tromba d’água invadiu todos os recantos

Anunciando os gorjeios da incauta tempestade…
Fortíssimos ventos faziam balouçar galhos das árvores
E espessa névoa tornava brancos os refolhos da visão…

Cobarde frio dissipava o angustiante calor que reinava
E o tempo confabulou com a atmosfera densa e opaca.
Raios trituravam com gigantescos riscos o horizonte nu
Enquanto os tambores melodiavam o ritual das trovoadas.

Havia receio enclausurado nas consciências despertas
E, naqueles que adormeciam, os sonhos eram trevosos,
Manipuladores das tragédias que cerceiam a tranquilidade
E trazem infinitos pontos donde se percebem joviais agonias…
Então a noite enamorou-se do dia e um novo sol veio a brilhar!



DE  Ivan de Oliveira Melo

CONSUETUDINÁRIO

O corpo parece plástico, eu sei, e me leio por inteiro.
Nadar! Nadar! Nadar sempre até os confins do mundo,
Pois a água que há na carne é um lago imenso e intenso
E a que vem dos céus traz a espuma que forma bolhas
De vida nesta enxurrada que é o respirar do infinito universo.

Tudo, tudo se assemelha às florestas e aos campos desertos
Onde o coração clama pela sobrevivência entre dias e noites...
Há papéis coloridos nas estampas que fulguram o vazio, e o frio
É apenas o calor naufragado dentre as ondas de um mar bravio
Em que as procelas sopram sobre as agitações das consciências
Que teimam em deserdar do espetáculo que é a natureza, o homem...

Ergue-se a âncora em que os navios da verdade apodrecem à mercê
Das mentiras que assaltam o mundo e tornam o viver sem apetite...
Muitas vozes se calam perante o silêncio que aponta as covardias
Sobraçadas ao destempero de uma realidade enferma e vadia.
Os gritos que surgem nos lençóis que cobrem os vícios de seda
Encontram as lágrimas dos nubentes do orbe que se casam amotinados
E levados ao cadafalso que é o suspiro do abismo entre a vida e a morte!

Há os que buscam incessantemente as ilhas em derredor do cotidiano,
Haja vista o desenho de inúmeras trilhas que mostram escapes virgens
Que são devaneios ousados e configurados pelos alicerces da aventura
Procriadora da coragem que verte sais de alento e das forças impulsivas
Constrangedoras do mal e sublimemente edificada pelo equilíbrio
Da vergonha que ensina o abc da existência... O corpo parece plástico!


DE Ivan de Oliveira Melo

SENTENÇA

Desejais ainda meu amor?
Fazei de mim a idade hoje
E diante do tudo que houve
Sede alegria seja onde for.

O tempo que é vosso divo
Reina com audácia em vós,
Por isso desatai todos os nós
Para que seja eu então cativo.

Não ignoreis vossa juventude,
Pois distante estais do ataúde
Onde vosso corpo descansará...

Juntem-se os dedos e vivamos,
Bela é a eloquência dos anos...
Pouco importa qual seja o lugar!


DE  Ivan de Oliveira Melo