segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

IMAGENS ONÍRICAS



O dia meio cinzento está entre neblinas.
O mormaço sua, corre dentre as veredas
Até os balcões etéreos que se camuflam
Sobre a multidão adormecida nas ruas.

De baixo para cima ou vice-versa há sol,
Porém diante da quietude da gleba se grita
Como se o mundo estivesse em guerra e paz...
A Terra é uma circunferência meio triangular

E em seus polígonos há passagens secretas
Onde se escondem as sombras dos vultos
Periféricos que contornam as criaturas vivas
Enquanto que as mortas usam travesseiros

De pelúcia... São as almofadas do sono eterno
Que inundam os perímetros urbanos dos sonhos!


DE  Ivan de Oliveira Melo


domingo, 13 de janeiro de 2019

ILUSÕES






De forma abstrata te possuo,
Pois materialmente és alegoria,
Então inscrevo-te em meu senso
Para que teus adereços me consumam
E em ti eu não seja mais utopia,
Mas o viço que me entorpece a vida.

Estás no patamar mais alto da imaginação
E eu teus sonhos navego ilhado
Pelos desejos que me assaltam
Desde o meu tombadilho até a tez
Nacarada por tua voz longínqua.

Vejo-me seduzido por uma abstração
Desenhada à mercê da criatividade
E de uma inconsciência que é o extrato
Das reflexões ultra sensoriais do cérebro
Conduzido a imaginar-te obcecada
Pelos desmandos de um tesão alcatifado.

Dentro das minhas fantasias surreais
Há um espelho de faces côncavas
Onde teu retrato é minha audaciosa fotografia
E daí retiro todos os átomos que me causam
A combustão de um prazer iníquo,
Porém sensivelmente adocicado pelo éter da paixão.

Sensibilidade edificada mediante ardente desejo
De ter-te e possuir-te sem meneios, mas com excitação
Suficientemente capaz de provar-te o ego emergente com ardor.
Meu coração chicoteia meio convexo e teu nome é inspiração
Que abrasa as tetas dum amor transformado em alucinação...

Portanto, és alucinação... Iconoclastia de minha febre de amar
E de ser amado por um corpo primaveril pleno de flores
E de um mel meio azedo e amargo, todavia táctil e sublime...
És uma ousadia fomentada pelas caricaturas de um âmago
Tão solitário e triste quanto a morte que nos abandona no sepulcro!




DE  Ivan de Oliveira Melo’

SENSORIAIS




Adormece o outono cinzento
E uma melodia crespa o vazio
Enquanto as árvores desnudas
Tropeçam os galhos ao vento.

No orvalho há uma doce canção
Que madruga sob o véu da fraca
Luz que alumia faces do silêncio
Alquebrado pelo odor da razão.

Uma tristeza enfadada do crisol
Arrebenta-se diante do pândego
Aconchego que nutre da alegria
As horas transviadas do arrebol.

E no ensaio das folhas que voam
Há o ritual dos ritmos que soam!


DE  Ivan de Oliveira Melo  


sábado, 12 de janeiro de 2019

AMANHECER



Raia o dia.
Fina garoa cobre a serra
Sob o manto de pesadas nuvens.

Abaixo, sobre o solo, tenaz umidade
Faz coagular o silêncio da erma manhã.

De repente, surge majestoso Sol
E, a chuva estreita,
Cede seu lugar ao potável calor.

Então a claridade desabrocha
Deixando ecos no passado
Que são os segredos da madrugada.



DE  Ivan de Oliveira Melo

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

PLENO DESABROCHAR




Num canteiro amarelado de flores,
Cheiro-as até convulsionar-me...
Nasce e morre em mim
Um olfato bastardo, sem brilho.
Lânguido, tropeço em mim mesmo
E uma chama de sono me entorpece...

Desperto. Zonzo e de sangue gélido,
Enxergo a atmosfera em derredor
Diante de um calor intenso
E de um aroma primaveril em brasa.

A noite se avizinha.
As mãos ainda frias, as pernas trôpegas,
Mas o pensamento inteiro à disposição
Das ideias que rolam no cérebro,
A esta altura arenoso e movediço.

Nas estrelas que cintilam desconfiadas,
Um ópio ardente me faz gritar em silêncio
E, na madrugada, percebo que o orvalho
Pisca como vaga-lumes
Anunciando que a noite perece
E um novo dia desponta no horizonte.
As flores, outrora amarelas,
Estão metamorfoseadas de esperanças!


DE  Ivan de Oliveira Melo


NATUREZA PURA




O navio que trota sobre as águas
Balouça sobre as ondas e, aqui e acolá,
Trepida em certo momento e se lança a ermo
Diante dos torvelinhos que assaltam a coragem
Deixando trépidos os olhos, marejados de medo.

Valsar dentre as vagas revoltas de um oceano
É dialogar com uma imensidão sem fim, infinita...
O sal é arremessado perante o paladar que o prova
E o retém submisso e acovardado . Eis o pânico!

As gaivotas se entrincheiram em revoadas nervosas
Esboçando sorrisos pelos traumas das embarcações
Que se perdem em ilhas sem nome e desconhecidas.
Dantescas tempestades se acrisolam sobre os mastros
Enquanto uma chuva torrencial varre o horizonte...

Relâmpagos traçam entre as nuvens riscos audaciosos
E despejam contundente energia sobre a terra órfã,
Cansada e sonolenta... Eis a prosopopeia do tempo!
Assim, os raios flamejantes ressuscitam teares vulcânicos...


DE  Ivan de Oliveira Melo



SAÍDA UNILATERAL



Dentro das conexões com a irrealidade.
É todo um instrumento de magnetismo pessoal
À procura da verdade e do amor sem fronteiras.
Por isso, as palavras sublimam-se
E são mel ou vinagre, quiçá...
Não me entrego à veiculação das mídias, luto
Até onde a inspiração me ensejar a interpretação
Do mundo contemporâneo, mas ao mesmo tempo
Fora de moda e ultrajante...
Despojei-me das lendas e deletei-me das fantasias,
São fatos de rua e há bastante penumbra envolvida,
Os detalhes são obscuros e a luz é artificial.
As alegorias se contrastam com a realidade
E os sentimentos não têm cor,
Então rejuvenescer é a única possibilidade de viver.




DE  Ivan de Oliveira Melo