quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

CANASTRA



Só meus gestos salpicam inquietude,
Os pensamentos alardeiam os sonhos
E eu, canastra real, não sei onde ponho
Os retalhos da consciência que se ilude.

Meu olhar esbraveja diante da sinestesia,
Os desejos se rompem enquanto choro,
Pois em meu inverno só vejo água e cloro,
Inseticida que alveja por onde eu pensaria.

Minha vontade se alquebra perante o sono,
A inconsciência reflexiona a canastra suja
Enquanto a razão recebe assaz de lambuja
O itinerário duma viagem em papel carbono.

Meus passos retroagem... vaivém de tiracolo
E, finalmente, mesmo atordoado, eu decolo!



DE  Ivan de Oliveira Melo 

MITOLÓGICO



Enalteço os deuses , abomino os demônios...
A Grécia aflora dentro de mim, viajo no tempo,
Desembaraço-me da correnteza dos ventos
E vou em busca, em meio à arte, dos hormônios
Que transmutam da sensibilidade, o êxtase...

Deliro com a Antiguidade... O Olimpo me convida
A descrever as aventuras e as desventuras das peças
Que singram através do cosmos, as horas imersas
Nos paredões donde a poesia nocauteou a vida
E trouxe, lentamente, um cardápio de perífrases...

Simplesmente, da mitologia confecciono tragédias
Que se incorporam a um dossiê repleto de dramas...
É a existência que não dorme, salpica o que se emana
Da inspiração e da apoteose... toda a enciclopédia!



DE  Ivan de Oliveira Melo  

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

ANTAGÔNICOS




Somente a dor ensina a viver,
Apenas o choro ensina a sorrir...
Só a saudade não deixa partir
O sentimento que pode morrer.

Somente a tristeza faz entender,
Apenas no sonho se quer dividir...
Só o medo é que provoca sentir
A coragem que busca sobreviver.

Somente a mentira faz entristecer,
Apenas a covardia alimenta trair...
Só o que é fidelidade faz permitir
O ideal esperança não envelhecer!

Somente a guerra é que faz lutar
Os apenas que a vida quer apagar!



DE  Ivan de Oliveira Melo

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

LIAMES




Nuvens de chumbo desabam sobre a terra
E deixam sequelas sobre cerrados e campos...
Quando viaja, a madrugada acende o dia,
Ofuscando a noite diante do febril horizonte.

O Sol dardeja sua luz dentre mares que choram
A impossibilidade de umedecer o chão gretado,
É como se fosse proibido gotejar sobre a vida
E alimentar a natureza que ruge e ruge, sedenta!

O tempo, amiúde, resvala-se nas horas cansadas,
Oblitera-se na vaidade das paisagens, o espaço vazio
Que, retém do solo, o húmus restaurador do enlevo
Edificador da saúde e das peripécias oníricas...

Traduzem-se as liberdades, enterra-se a escravidão
E tudo se metamorfoseia perante odisseias sutis!



De  Ivan de Oliveira Melo

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

ARQUIVOS



Os pensamentos que voam sem destino
São transeuntes na esplanada dos astros
Que os recolhem incólumes, sem rastros
Do engarrafamento trépido do desatino.

As consciências que navegam no infinito
São criaturas endógenas do viver incerto
Que trucidam os reflexos que estão perto
Do tímido arrebol que macula o psíquico.

Os prazeres desnudam da alma a volúpia
Que submerge diante da inconsciência vil
E leva até o palco da turba a foto do perfil
De uma individualidade carente, estúpida!

Da indigestão onírica que perfura a mente,
Há uma fantasmagórica imagem, somente!



DE  Ivan de Oliveira Melo  

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

ARTE ESPACIAL




Mergulhei no metafísico
Para navegar sobre os astros;
Atônito, nadei alucinado no éter
E velejei conforme meu psíquico.

Sem afundar, tampouco sem afogar-me,
Consegui boiar sem os cadastros
Que se infiltram pelo catéter
E que inspira a sensibilidade da arte.

No cosmos há sensualidade sombria
E uma volúpia que assaz arrepia
Qualquer cio que se aventure escrever...

No infinito, transbordam-se alegorias
Para no tesão imaginativo que se cria
Possam as obras formar um ateliê!


DE  Ivan de Oliveira Melo



sexta-feira, 22 de novembro de 2019

EVOLAÇÃO DAS CRIPTAS



Noite escura. Ventos fortes.
Mortalhas cruzam os céus
E, do alto da árvore, sinistro...
Os corvos piam famintos!

Momento arrepiante se faz
E o medo se instala sem dó...
Vultos alucinógenos correm
Sobre os cadáveres sem leito.

Tremendo, a Lua se esconde
Dentre as insensatas nuvens
Que espalham pânico e dor
Em sua negritude metafísica.

Sombras dos umbrais cantam
O verdor luxuriante do pavor
E convidam os mortos-vivos
A saborearem o sangue fresco

Das carnificinas já apodrecidas
Dentre os inorgânicos fósseis
Que dormem à luz das covas
Abertas à visitação dos abutres.

Um orvalho negro que escorre
Diante dum manjar gangrenado,
É néctar da ignomínia que exala
Da morte tétrica e pustulenta.

Bacanais dos olfatos hediondos
Que rondam da Terra macabra
As fúnebres emanações do palor
Que atraem alicerces de loucura!



DE  Ivan de Oliveira Melo