segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Flertando a Lua


Estou sentado à beira-mar
Na areia úmida
De um mar seco!
Observo o nascer da lua...
Linda dama de vermelho
Deixa as águas prateadas
Com seu esplendor!
A inspiração bate
À minha porta
E minha veia aorta
Quer saltar-me pela boca!
Que momento lindo!
Indescritível!
Logo me vem à lembrança
O amor... sim, o amor...
Mas estou só...
Olhos rasos d’água
De emoção...
Mas estou só... de repente
Assalta-me com fúria
Intenso tesão...
Desnudo-me, então
E, tresloucadamente,
Mergulho nas águas mornas
Navegando meu coração!
Nado e choro simultaneamente
Até que a lua, suavemente,
Desaparece entre nuvens negras
E espessas gotas d’água
Cobrem o litoral...
Roupas ensopadas
Vestem-me
E vou embora delirando,
Caminhando pelo calçadão,
Sorriso de aventura...
A deusa no firmamento
Reaparece vestida de branco
E eu suando de frio
Esperando... esperando...
Pelo sol do novo dia!

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Amor Bandido



Eras tão somente um psicodélico picolé
Que o calor da vida sem dó derreteu,
Fizeste ladainha com o que era teu,
Agora não sei aonde andas, mulher...

Se no frio arrepiante enxugaste gelo,
O tempo quente te fez água suja,
Para muitos foste a tal dita cuja
Que perfurou de solidão meu espelho.

Bem que o amor tentou em vão visitar-te
Nos poemas que te escrevi com engenho e arte,
Mas teu lado bandida renegou minha paixão...

Eu te amei... o destino quis o inverso,
Abandonaste o amor que te havia tão perto,
Agora há outro nome em meu coração!

Biópsia Social



Encontro-me bifurcado na esteira dos extremos:
De um lado, a sanha social; do outro, sepulcral solidão!
Horas intensas de convício hipócrita, tempo ínfimo de inspiração
Onde busco sufocar decepções para um manjar mais ameno.

Sobre este muro de lamentações ponho em prova o equilíbrio
De saber dosar situações em que navegam os riscos,
Tarefa árdua para quem singra o tempo marcando dísticos
Sob a constante ameaça de mergulhar no desperdício.

Sou tripulante deste universo que há muito sufocou o piloto
Nas estâncias metafísicas onde desterraram o porto
E a céu aberto tento sobreviver alhures a qualquer capricho...

Arrebentam-se as emoções já afogadas pelas estradas sinistras
Em que o marca-passo perdeu os traços, as sensações não são castiças
E cada qual que governe seu rebanho e proteja seu nicho!

Linha Indireta



Sou tímido e a vida me leva a reboque,
Disfarço-me perante a turba extrovertida,
Escondo-me até encontrar uma saída
Que me liberte de indesejados toques.

Minha introversão é um mundo imaginário
E edifico um universo onde respiro e sobrevivo,
Faço desses valores o alimento de que preciso
Para saborear a realidade do meu receituário.

Evasão fora de época? Fingimento poético exacerbado?
Não sei! Minha doutrina tem dogmas quadrados
E nesse senso de mistério busco-me no surrealismo...

Sou tímido e conta-gotas de várias raízes,
Embrenho-me no gótico e no metafísico sem vertigens
E adocico um romantismo e social sem fascismo!

Ondas Pretéritas



Não é doce recordar uma frustração,
É amargo o açúcar que não tem zelo,
Adoçantes são sintéticos, tornam tudo azedo
Como lágrimas salgadas que dão sede ao coração.

Reviver lembranças custa caro à saudade,
Reminiscências balouçam árvores do passado,
É mister recolher fiapos do que foi consumado
Para no  presente a solidão coser sua faculdade.

As estações são sucessivas; o tempo, inexorável...
Voltar o pensamento ao que passou pode ser inflamável
E nas dores cremadas há cinzas que parecem ressurgir...

Não se faça sincretismo ideológico com o pretérito,
A vida se renova, novos amores precisam de teto
A fim de que o sorriso seja imagem auspiciosa do porvir!

No diapasão da morte



Debaixo de chuva caminho pelo cemitério
Na noite trôpega vinculada a raios e trovões,
Perambulo entre as catacumbas ao som dos violões
Que distantes tocam marchas fúnebres de estilo ébrio.

O silêncio me ensurdece as aurículas na lama esparsa
E o vento úmido empurra-me contra as grades do medo,
Sigo contrito meu destino contornando todos os becos,
Mas me sentindo perseguido por arrepios de fantasmas.

Dentro da escuridão intensa meu cérebro trabalha
E anestesio minha alma para encarar funestas batalhas
Que certamente ocorrem  entre eu e o tempo...

Na tempestade sem tréguas meu corpo é fadiga,
Então cruzo ressabiado o necrotério onde mãos amigas
Velam meu cadáver com profundas preces e sentimento!

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Diálogo Vegetal

DIÁLOGO VEGETAL
-Crônica Poética-

Eu passeava por imenso jardim quando escutei plantas que dialogavam. Uma roseira e um pé de orquídeas haviam em si a seguinte conversação.
- Preciso de mudar de ares, estou triste aqui. – Desabafavam os galhos das orquídeas.
- Por que? – interrogou a roseira,
- Estou muito abandonada! Observe meus ramos e minhas flores... Tenho sede, não colocam esterco em minhas raízes, vou morrer assim, logo, logo...
- Ah, você ainda não assimilou que é uma planta! – Dizia a roseira e continuou – estou muito pouco preocupada com isso, minha missão é perfumar, levar o aroma das rosas para que no olfato dos homens, eles possam desvendar o segredo da vida.
- Mas você não percebe como estou feia, destrambelhada?- retrucou o pé de orquídea.
- Assuma sua responsabilidade - aconselhou a roseira – Seu objetivo é adornar, tornar belos os ambientes, porque sua beleza encanta. Na união do meu perfume, dos seus encantos e das demais flores, é que o mundo encontrará sua paz e a justiça reinará...
-Como está tão certa disso? – Questionou o pé de orquídea.
- É só você observar em torno de nós. Somos exemplo. Os humanos caminham, fazem guerras e assolam a fome. Nós apenas temos sede e, com a chuva, saciamos nossas necessidades. Veja: está chovendo e nós nem precisamos de sombrinhas ou de qualquer outra proteção. Somos fixas e a terra supre nossa sobrevivência... – Explicou a roseira.
- Agora entendi! – Confirmou o pé de orquídea. – Os humanos precisam de olhar mais em derredor de si mesmos, devem buscar solucionarem suas próprias questões ao invés de alienarem com os conflitos alheios. Assim viverão mais e terão mais saúde...
- Bela interpretação! – Aplaudiu a roseira. – Eles são bonitos, cheirosos, inteligentes, são como nós, somente necessitam de valorizar sua casa e trabalhar em prol do próprio benefício e em seus domínios. Como nós, eles nascem, crescem, reproduzem e morrem. É o ciclo da vida. Logo que disso tiverem plena consciência, a existência será de total felicidade!
- Você me parece filósofa! –Falou o pé de orquídea.
- Mas eu sou, nós somos... A Filosofia é a mãe e a essência de todo o saber. Vamos trabalhar na fotossíntese, já é tarde!
Então abandonei o jardim e cá estou registrando este fenomenal e belíssimo ensinamento.
Agora vou filosofar!