quinta-feira, 16 de julho de 2020

INSALUBRE




Cá estou eu,
Deitado sobre almofadas,
Acariciando o pensamento,
Lambendo das vicissitudes
Que somos obrigados
A suportar do quotidiano...

Aqui estou eu,
Opresso pela agonia
Dum dia a dia inescrupuloso
Em que as torrentes maquiavélicas
Se deitam sobre as consciências
Malfadadas e tolhem o bem-estar.

Assim sou eu,
Menestrel das combustões
Que dilaceram o epigrama
Da existência urdida
Pela mentepsicose das paixões
Estéreis dum tempo esdrúxulo.

Destarte sou eu,
O vilão de mim mesmo,
Opúsculo das razões permeáveis
Que desenham no círculo das emoções
O avatar demoníaco das trevas oníricas,
Coadjuvantes da maledicência secular.

Doravante possa eu,
No eclipsar da sobrevivência,
Capturar os diabetes sazonais
Que fazem de mim
Fantoche de deserdadas sensações
Cultivadas sob a égide da loucura.

Data vênia à minha inconsciência
Que não adormece sobre prados brancos,
Mas labuta sonhos ortodoxos
A fim de que nesta anacrônica
Reflexão que faço do meu ego
Seja uma anatômica depressão efêmera!

terça-feira, 14 de julho de 2020

ADVERSATIVOS




Tão nobre e vive a pedir asilo...
O pobre é engolido pelas ondas
Na vida das peripécias redondas
Onde não se sabe o que é aquilo.

Tão rico e sobrevive sem estilo...
O indigente só respira por sondas
Na existência de ações hediondas
Em que a fome mata o desvalido.

Tanta abundância sem um porquê,
É a carência que faz o mundo sofrer
Perante anacronismos coadjuvantes.

Diante duma abastança que é dossiê
Só há bolos com espinhos de glacê
E uma água cheia de anabolizantes!


DE  Ivan de Oliveira Melo  

domingo, 21 de junho de 2020

VIVE O AGORA!





Não me interpeles!
O juízo não me falta.
É lícito conhecer
A verdade,
Mas ilícito promover
A mentira.
Nada me indagues!
Antes concorda
Com a natureza
Que é sábia,
Tudo ela te dirá
Caso não a atormentes.
Nem me questiones!
Em pleno sol
De verão
O inverso desaba
Torrentes infinitas.
O tempo é breve,
Contudo a esperança
É ilimitada.
No passar das horas,
Chega uma tempestade
De outono
E as folhas secas
Varrerão o mundo,
Todavia só na primavera
Os olfatos estarão
Inebriados de perfume,
Porque assim é
O ambiente das flores.
Nunca me perguntes
Sobre a razão
Dos ventos!
Ele sopra tempestades,
Porém também
Sopra brisas
Em que o orvalho
É o esmalte
Da atmosfera
E o amor
O espaço sazonado
Onde reside
A felicidade.
Jamais me interrogues!
Compreende tu mesmo
O ciclo vital,
Porque a vida
É imortal
E nós somos
Compêndios do infinito!


DE  Ivan de Oliveira Melo

sábado, 20 de junho de 2020

PRISÃO





Observo os ventos que vêm do leste
E me atrevo a voar com a imaginação
Até onde vejo o dissipar-se da solidão,
É permuta da saudade que me veste.

Vislumbro a luz que alumia minha alma
E ousadamente me desfaço da escuridão
Que me faz refém do meu próprio coração,
É a lágrima presa em desvario que deságua.

Sinto a dor que me perfura deveras o íntimo
E timidamente me percebo assaz selvagem
Diante de um mundo pleno de camuflagem,
É a consciência em atropelo intrínseco...

Enfim, sou apenas vexame da minha mente
Que, nocauteada de tédio, respira somente!


DE  Ivan de Oliveira Melo

quarta-feira, 17 de junho de 2020

CONSTIPAÇÃO





Meu resfriado é frenético, doidivanas...

Traz-me tosse, garganta inflamada, febre
E ainda quer que eu me sinta bastante leve

A fim de que uma coragem meio sobrenatural
Possa fazer-me dançar e pular num carnaval
Fora de época e até que a morte nos separe...

Já não é um resfriado comum, é mesmo gripe
Que me tapa a respiração, uma forte virose
Embalsamada em meu corpo e que me descose
Os órgãos em torvelinhos até que eu me dissipe.

Esta influenza massacra e me deixa pelo avesso,
Os pulmões recebem como hóspede o catarro
Que me atacam os brônquios e o viver escasso...
Bronquite e pneumonia me assediam o endereço,
Contudo meu organismo reage e eu tudo amasso!


DE  Ivan de Oliveira Melo

domingo, 14 de junho de 2020

MITOLOGIA MODERNA




Veneram-se imagens nos pedestais da Terra...

A mitologia não feneceu, segue viva, in natura
Perante as potestades humanas da modernidade.

Deuses e deusas de pedra são adorados por reféns
Que guardam em seus âmagos o platonismo da fé
E a eles se debruçam e entregam suas vidas finitas.

Tais seres são silenciosos em seu mutismo do nada,
Porque do tudo as consciências resgatam o equilíbrio
Psíquico de suas almas... No Olimpo contemporâneo,
As forças da natureza rechaçam o impaludismo falso.

A centelha da verdade é a fé racionalizada do infinito
Donde de obtém o respaldo carismático dos milagres
Que confeccionam da existência atributos palpáveis
E investigados a olho nu... A cegueira domina o átrio!
Divindades iconoclastas: imprudência da razão enferma!


DE  Ivan de Oliveira Melo

OPORTUNIDADES





O chá é a profunda meditação da tarde
Servido no silêncio das boas conversas...
Quentinho e com torradas, santa delícia!
Os idosos adoram bebê-lo em comunhão
No conforto das almofadas ou no jardim,
Onde possam escutar o canto dos pássaros.
As idosas amam oferecê-lo às amigas
A fim de colocar a vida dos outros em dia
Numa torrente de fofoca que não tem fim...
Com sol ou chuva, o chá não se dispensa,
Pode desabar o mundo, cair fogo dos céus,
Mas lá estão eles e elas a baterem o ponto
Nos vespertinos encontros do dia a dia...
Há quem expresse serem esses instantes
O labor dos aposentados, das pensionistas
E dos viúvos de plantão...Quem sabe?
De repente tudo pode acontecer, por que não?
Descompromissados e livres, tais indivíduos
Estão sujeitos a uma nova relação de amor...
Afinal, o amor é uma faca de dois gumes:
De um lado ele; do outro, ela... “cama à vista!”


DE  Ivan de Oliveira Melo