sexta-feira, 22 de maio de 2020

O PARTO






Desaba sobre mim uma nostalgia frenética

Que me põe grávido diante dos sentimentos
E me faz enjoar perante uma crise estética

Do meu íntimo que pranteia as desilusões...
Percebo-me em mim um desejo de solidão
Próprio das parturientes que ensejam o amor.

Vomito infinitas doses dos pensamentos
Que me retém prisioneira a consciência
Já contrabandista das egrégoras ufanistas
Do pecado extraído dos sonhos dantescos.

Eis um pré-natal que se dilui no tempo
Alcançando as esferas do zodíaco impessoal,,,
Chega o instante do parto: as dores intensas
Perfuram-se todos os desejos inconcebíveis
E no minuto final nasce o rebento: a saudade!’



DE  Ivan de Oliveira Melo  

sábado, 16 de maio de 2020

DIZIMADOS





Com o tempo se desgasta o asfalto,
Na atmosfera declina-se a poluição
E os ventos carregam na contramão
As incertezas impuras que decalco...

É o tempo anfitrião das atrocidades
Que se debruçam sobre o universo,
Em cada ponto há o sentido inverso
Que camufla o teor das inverdades.

Sob o éter em que se respira a vida,
A fuligem se espalha tão destemida
Que derrama incenso sobre a morte...

Quão inútil é o desespero das gentes
Que, alucinadas, morrem de repente
Trucidadas diante do fel passaporte!


DE  Ivan de Oliveira Melo

sexta-feira, 15 de maio de 2020

FOGARÉU




Perante o mundo entoei meu canto,
Escrevi em verso e prosa a fantasia
Que me fotografou na alma arredia
A simbiose catártica do meu pranto.

Diante do cosmos descrevi estrelas
Que salpicavam luz sobre os mares
E jogavam em suas vagas ondulares
Os sonhos líricos que são incertezas.

Pude navegar insólito sobre as dunas
Dos vícios... Ver as horas importunas
Que regem o mergulho sobre a areia...

Afinal, afoguei-me indócil no tempo
E tudo o que sei e que ainda eu penso
É que vida sem perfume se incendeia!



DE  Ivan de Oliveira Melo



quinta-feira, 7 de maio de 2020

REFINARIA GRAMATICAL





Vejo-me dialético dentre os vagões filosóficos,
Enveredo por anátemas reflexivos de contrastes
Que tingem do pensamento as veredas anacrônicas
Contraditórias aos inexoráveis argumentos empíricos.

Diante de uma retórica que transcende o ocultismo,
Minhas palavras não se coadunam com a semântica,
Então uma polissêmica aventura no léxico do idioma
Traz efeitos novos perante as estruturas morfológicas.

Sinto-me crítico dos meus próprios estratagemas...
É possível que teares ortodoxos tenham construído
As estradas infláveis que mantêm na diacronia da língua
Os sintagmáticos padrões que auxiliam a sintaxe inversa.

Mediante os vícios que constrangem a estilística,
Navego dentro de uma imprudência normativa e social
Donde os paradigmas excluem, dos neologismos fonéticos,
A formação regencial que se opera em construções chulas.

É mister que os arcaísmos renasçam dentre o vocabulário
A fim de que a concordância possa interagir com o sentido
Exponencial que certos termos adquirem em seu manuseio
E tornem as elucubrações gramaticais denotativas e reais.



DE  Ivan de Oliveira Melo  


REBELIÃO





O pensamento não encontra fronteiras,
Os ventos uivam como lobos famintos,
As tempestades desabam sobre infinitos
Pontos onde o silêncio chora derradeiras

Odes sobre planícies a planaltos distintos.
A consciência sobrevoa pelas ribanceiras,
O medo se instala nas estações primeiras
E as verdades do mundo estão mentindo.

Os sonhos são os costumes inadimplentes
Que fantasiam cada vida tresloucadamente
E se permitem desenhar os ideais frenéticos.

A inconsciência transforma-se em utopias
Que ensejam realidades que são hipocrisias
Diante dos patamares hediondos e tétricos!


DE  Ivan de Oliveira Melo

quarta-feira, 6 de maio de 2020

APETITE LÚGUBRE


Os corvos iniciam rituais de bailados,
Dançam freneticamente diante das covas,
Pois estão embriagados e apaixonados
Pelo odor mefítico das podridões novas.
Gritam em pleno ar, o apetite se renova
Sempre que chegam os corpos mutilados
Pela desdenhosa morte que não é trova,
Mas um infortúnio na vida dos flagelados.
Ah, carnificina! Nesta inorgânica panaceia
Os cadáveres sofrem efeitos duma odisseia
Donde se produz o manjar dos vis abutres...
Sem dúvidas, são manifestações macabras,
Os fúnebres são alimento predileto nas aras
Que ardem da felicidade dos que se nutrem!


DE Ivan de Oliveira Melo

segunda-feira, 4 de maio de 2020

CONCENTRAÇÃO


Não necessito cansar-me para caminhar...
Sem sair do lugar, perambulo quilômetros,
Ando que ando, corro, viajo com a mente
E chego em qualquer lugar que me destino...
Tudo isso em questão de poucos segundos.
Determino a velocidade conforme o interesse
E tanto faz empregar os passos de tartaruga
Como colocar em prática a velocidade da luz...
A consciência é o combustível de que preciso
Para empreender aventuras pelo universo
E tudo sem nada gastar, inteiramente grátis...
Do mesmo modo, falo sem fazer uso da boca,
Enxergo com os olhos fechados ou vendados,
Escuto o silêncio apenas usando a imaginação.
Eis o caráter do pensamento. Vale a pena usar!


DE Ivan de Oliveira Melo.