domingo, 11 de outubro de 2020

FUTUM


 

 

 

Estou assustado, confuso, tenebroso...

 

Sinto o que se apodera de mim: gangrena!

Percebo em tudo o que faço... o odor.

 

Fragrância nas palavras e, até, em meus pensamentos,

Razão pela qual os abutres mentais me cercam

E desovam sobre mim uma terapêutica carnificina.

 

Minha consciência é húmus febril e dantesco,

Tudo apodrece em meu íntimo e é inhaca...

Minhas ideias estão em derredor desse ranço

E é uma caatinga que se faz em mim sertão...

 

Estou nauseabundo, preso a uma trincheira de dejetos

Que me retêm o olfato inadimplente das rosas...

Noto-me depósito de uma urina ácida e sem cor,

Por isso uma insanidade atrevida comanda meu eu

E me leva a diagnosticar-me estrume da existência!

 

 

 

DE  Ivan de Oliveira Melo

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

DOUTRINA

 

 

É o tempo que passa

E nos arrasta com ele.

Somos leves qual pássaro

Que, dentre os assobios das brisas,

Voa sem destino pelas veredas

Sem portos, sem estações.

 

Somos sobreviventes anônimos

Das infecções virulentas e bacterianas

Que assolam um planeta já febril.

Somos vítimas e assaz testemunhas

Das patologias que desregram o social

E nos lambuza de efeitos contagiosos.

 

Felizes somos nós que vivenciamos

As arestas desconhecidas das enfermidades

E as ultrapassamos com galhardia.

Resta-nos uma reflexão íntima

A fim de que possamos entender a vida

Como suporte sublime da Criação.

 

Que os conflitos pandêmicos ilustrem

Os corações de pedra...

Que o sofrimento que gera imposição

Possa transformar o mal em bem,

A tristeza em alegria,

A ignorância em conhecimento,

As trevas em luz!

 

Por si só, a vida é um milagre...

As mãos precisam se tocarem,

Os abraços necessitam produzir amor

Numa confraternização de fé!

Que este presente de hoje

Possa ser, amanhã,

Um passado de transfigurações

Em que o orgulho se dobre

Diante da humildade,

Que o egoísmo se retrate

E possa distribuir o verdadeiro alimento

Que seduz a alma: o amor!

 

Viver é estar plenamente consciente

Da responsabilidade com o próximo...

Que a hipocrisia seja ultrajada

Pela verdade que é altruísta.

Que as bocas não precisem prolatar

O “eu te amo”, pois que seja

Esta a premissa do olhar!

Que as mortes não hajam sido em vão,

Mas sacrifícios que regeneraram

O sabor da existência!

 

 

 

DE  Ivan de Oliveira Melo

 

terça-feira, 29 de setembro de 2020

AMAR

 

 

 

 

Tão vulnerável é o sentimento humano!

 

Quem diz que ama, às vezes nem sabe amar,

Prolata tal sentimento da boca para fora, sim!

 

Trata-se de uma expressão que se torna vulgar

Na medida em que não é compreendido e traz

Emoções esdrúxulas e hipócritas ao cotidiano.

 

Muito comum ouvir-se em qualquer situação

Um “eu te amo” sem a sinestesia que evoca

As mais puras sensações que enternecem a vida

E que fazem vibrar os anelos do coração carente.

 

Amar não é agradecer nem agradar... É vínculo

De solidariedade e fraternidade conjuntamente

Entrelaçadas dentre os arremedos que fustigam

A doce estratégia do dar e do receber, do perdoar!

É fidelidade e aceitação, respeito às diferenças!

 

 

DE  Ivan de Oliveira Melo

sábado, 26 de setembro de 2020

AGONY

 

 

There were dry leaves on the ground...

 

The time was hot but my face was cold

And my body was wet by drops of sweat.

 

A great anguish took care of my thoughts...

I wanted to speak something but I couldn’t

Hear any words from me... I was doped!

 

Suddenly I could feel some tears in my eyes.

Yes! I was crying but I couldn’t understand

The reason of this...Would I be mad? I thought.

There weren’t any troubles in my life. I was free!

 

Then I saw a deep hole around me. Much sand.

Near this sand there were some crows waiting...

But waiting what?  What was it happening?

A funeral music splashed sounds in my ears,

So I understood that I was dying in that moment!

 

 

By Ivan de Oliveira Melo

 

INDOMÁVEL

 

 

Meu tempo é o de ontem.

Hoje sou plenamente anacrônico...

Às vezes pareço do tipo inexorável,

De uma severidade assaz ortodoxa.

 

Para coadunar-se diante de certos modernismos

É mister seguir preceitos profanos

Que tornam o indivíduo meio herético,

Reformista dos costumes e das tradições teístas.

 

Meu tempo é o de ontem,

A diacronia não se embebe do meu ser,

Tento ser paradigma para meus sintagmas...

 

De um teor denotativo é o meu pensar,

Hermético perante as ejaculações fúteis

Que fazem da contemporaneidade período linfático!

 

 

DE  Ivan de Oliveira Melo

 

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

HISTÓRICO

 

 

 

O tempo galopa e deixa cicatrizes

Num éter que, sábio, é memória

Perante fatos que marcam a História

Dos homens alegres e dos infelizes...

 

Da Antiguidade fala-se em caverna

E os desenhos rústicos são hieróglifos

Que transmitem vida sem ser apócrifos

E retratam uma existência não hodierna.

 

Período de religiosidades bem politeístas,

Cultivadas na ignorância sobre as pedras

Que nada falavam sobre as vidas eternas,

Eram deuses surdos-mudos e anarquistas.

 

E chega ao progresso de uma Era Cristã,

Donde valores morais são postos à prova,

Contudo a humanidade é vil, não se renova

Tornando maltrapilha a Boa Nova neste afã.

 

Numa Idade chamada Média a Igreja mata

Em nome de Deus os chamados de hereges,

Pois bruxos e feiticeiros na magia descrevem

Fatos que contrariam a doutrina de uma nata.

 

Época que fotografa as viagens e aventuras

Dos que se lançam corajosamente nos mares,

Grandes Navegações trazem perigos graves,

Contudo desvendam rotas, terras e negruras.

 

Pobres africanos usurpados e feitos escravos

Viram moedas em vendas, trocas e comércio,

Valiam fortunas, desbancaram até o sestércio

E anonimamente desembarcavam carregados.

 

Por outro lado, o mundo respira transformações

E o Ocidente se veste de requinte e de talento,

Nas artes e nas ciências ocorre desbravamento

Com o Renascimento que traz luzes e emoções.

 

É um tempo repleto de invenções e descobertas,

Gutemberg traz a imprensa e Galileu é astrônomo,

Embora fundamental ao cientificismo, é condenado

Por heresia ao formular teses inteligentes, espertas.

 

Alighieri entrega ao mundo a sua Divina Comédia,

Obra que enfoca o Paraíso, o Purgatório e o Inferno,

Outros autores e obras se destacam no seio externo

Do universo, destarte existam a ganância e a miséria.

 

Chega-se à Era Moderna. Constantinopla é dos turcos,

A Revolução Francesa cai com a queda da Bastilha,

Fase que surgem as bases para uma novíssima trilha

E os aspectos sociais e econômicos têm outros cursos.

 

A mentalidade do homem ganha horizontes nunca vistos,

Com a Revolução Industrial monta-se o mercantilismo,

Sistemas coloniais aquecem o surgimento do capitalismo

E o “Novo Mundo” é integrado à História sem imprevistos.

 

Na Europa nasce o poder dos reis, que é o Absolutismo,

O regime feudal cede lugar aos aparatos da burguesia,

O medievalismo enterrou-se sob as hostes em que seriam

Implantadas rotas comerciais obrigatórias para consumismo.

 

Não se pode abandonar os filósofos desta fase importante,

Anos de muitas luzes de uma intelectualidade iluminista,

Ilustração da sabedoria e da liberdade e de uma conquista:

O não atrelamento da educação à religião, nada como antes.

 

Profundas metamorfoses acontecem na era contemporânea,

As sociedades se envolvem em conflitos de amplitude mundial,

Doenças destroçam a saúde dos povos como um vendaval,

São pandemias e enfermidades erógenas em miscelânea...

 

Uma globalização dos assuntos econômicos torna-se sistema,

O viés tecnológico assombra como referência do progresso,

A natureza torna-se a raiz exploratória da riqueza e do excesso,

O homem tudo dela tira para sobreviver dentro do seu esquema.

 

Na política e nos esportes se têm arremedos de muita corrupção,

A religiosidade traz o aparecimento de inúmeras igrejas e seitas

Que visam, como maior objetivo, a insurreição do capital que deleita

Seus fundadores e irresponsáveis dirigentes como pseudo doação.

 

A vida nesta recente Idade aboliu a decência e os bons costumes...

Quem sabe? Reflexo de duas guerras mundiais e do terrorismo?

Ou da hipocrisia lançada pelas grandes potências sem altruísmo?

Desmatamentos, fome, mazelas. Tudo se comete e ficam impunes!

 

Eis um período em que inventaram o telefone, a lâmpada elétrica...

Também surgiu a aviação, o automóvel, a televisão, o trem-bala...

Novidades que os ancestrais não alcançaram da inteligência rara,

Mas que se tornam obsoletas diante do ser humano sem estética!

 

 

 

DE  Ivan de Oliveira Melo 

  

 

 

 

 

 

 

 

   

 

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

IN NATURA







Dos uivos dos ventos
Quero compor uma serenata,
Unir bons semibreves aos centos,
Dizer que amor é palavra cognata
Do magnífico verbo amar...

Dos ruídos da chuva
Quero escrever poesias,
Fazer contrapontos em linha turva
Para escutar o que não ouvia
Sobre os remelexos nas ondas do mar...

Do crepitar do fogo
Quero ser inúmeras fagulhas
Para nos acordes ser de novo
O anjo rebelde que entulha
Carinho e ternura sem parar...

No compasso indelével da música
Quero bailar palavras em meu paladar!



DE  Ivan de Oliveira Melo