domingo, 6 de outubro de 2013

Âmago Vazio


Minha  alma  chora
E  meu  coração  está  sorrindo...
Fogueira  de  ilusões  no  dia  findo
A  suspirar  nos  andaimes  da  aurora...

Crepúsculo  íntimo  que  me  devora
De  incertezas  o  verde  dos  meus  campos,
Terra  roxa  sombreada  pela  luz  de  pirilampos
Em  que  o  tempo  me  mastiga  cansadas  horas.

Lágrimas  são  afluentes  de  minhas  serras
Que  escorrem  pelos  labirintos  da  espera
Sem  semearem   sementes  no  solo  seco...

Na  aridez  de  um  chão  de  rachaduras
Dilúvio  de  dores  cobrem  oásis  de  aventuras
Tapeando  sentimentos  de  ignóbeis  estercos!




sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Nudez de Amor


Plumas  sobrevoam  teu  corpo  inerte,
Lágrimas  umedecem  tua  face  rígida,
Muito  cedo  partes... Por  que  esta  despedida
Se  o  amor  que  prometeste  não  me  deste?

Navegas  agora  pelos  paetês  da  vida  eterna
E  eu  mergulho  numa  solidão  moribunda  sem  fim...
Tempo  ingrato...  horas  ermas...  Que  será  de  mim
Se  o  paladar  daqueles  beijos  meus  lábios  conservam?

Saudade... Palavra  vazia  do  que  não  há  espera,
Pois  o  mundo  dissipou  todas  as  quimeras
E  a  noite  dorme  no  mausoléu  dos  meus  sonhos...

Morte...  em  meu  jardim  sinto  teu  olfato...
Por  que  tuas  flores  negras  perfumaram  meu  regaço
Abandonando-me  desnudo  perante  um  respirar  tristonho?



quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Sabores Platônicos


Meus  olhos  fotografaram  teu  corpo  delgado
E  na  imaginação  o  trancafiei  a  sete  chaves,
Meu  coração  alucinou-se  porque  nunca  foi  praxe
Ver-me  ribombado  pela  magia  de  um  retrato.

Decodifiquei  cada  centímetro  de  esbeltos  ângulos
Deixando-me  seduzir  por  curvas  sutis,  quase  rarefeitas...
Monumento  de  uma  escultura   passional  que  deleita
A  estrutura  do  meu  esqueleto  sensível  e  sonâmbulo.

Assediado  pelos  trejeitos  sensuais  de  tua  arquitetura,
Desabilitei  as  trancas  fulgurantes  de  minha  censura
E  me  vi  envolto  pelas  carícias  que  tinham  teu  nome...

Deitei  sobre  a  catre  orgia  com  desejos  perfumados
De  ter-te  e  possuir-te  entre  lençóis  macios  e  aveludados

Que  guardassem  o  segredo  do  tesão  que  me  consome!                                                   

Viés da Natureza


Muitos  novelos  são  falsos  diamantes,
Pedras  brutas  que  enfeitam  do  litoral  as  enseadas,
Grãos  hirtos  de  areia  titubeantes
Se  espalham  pelo  solo  úmido  da  costa  dourada.

Vagas  incandescentes  se  agitam  furiosas  nos  ares
E  caem  sobre  recifes  formadores  de  piscinas,
Os  efeitos  são  energia  de  causas  elementares
E  sua  consequência  uma  magia  que  não  desafina.

Os  ventos  sopram  feitiços  em  átomos  de  vida
Que  se  reproduzem  em  ninhos  de  venturosa
Dentre  as  substâncias  ímpias  da  massa  gasosa...

No  espaço  a  atmosfera  festeja  destemida
A  chuva  que  despenca  sobre  as  várzeas  dos  mares
Numa  metamorfose  que  sacia  a  eloquência  dos  paladares!




Caricaturas Inversas


O  mundo  escreve  solidariedade  com  violência,
Também  desenha  o  amor  por  puro  interesse,
Se  o  senso  evitasse  que  a  vergonha  se  escondesse,
Certamente  ao  redor  do  povo  haveria  decência.

Fraternidade  é  adjunto  determinante  da  hipocrisia
Que  reina  sorrateira  sobre  os  alicerces  do  poder,
Na  desventura  analítica  os  traços  dão  a  entender
Que  o  absolutismo  traveste  a  inflação  de  carestia.

Os  menos  favorecidos  são  carreatas  da  ambição
Levados  por  promessas  de  fundo  falso  às  redes  do  alçapão
Que  agasalham  suas  lágrimas  protegendo-as  do  frio...

Sede  e  fome  de  justiça  enfermam  a  pança  da  verdade
Cujos  intestinos  obram  vedetes  que  são  promiscuidade

Que  dilatam  o  organismo  deixando  o  estômago  oco  e  vazio!

domingo, 8 de setembro de 2013

Cronologia da Existência


A  vida  é  sempre  um  aconchego
Seja  de  tristezas,  seja  de  alegrias...
A  felicidade  é  terna,  não  eterna,
Pois  são  dispositivos  de  tempo
Denominados  momentos...
As  horas  são  mágicas...
Em  cada  minuto  vivido
Percebem-se  truques  da  sobrevivência
Intitulados  instantes...
Assim  caminhamos  pelas  estradas
Da  cronologia  de  uma  existência  breve,
Ora  nos  alimentando  da  eloquência,
Ora  vomitando  vermes...
O  Todo  é  infinito,
Mas  o  Tudo  é  efêmero,
Quase  Nada...
Entre  o  Tudo  e  o  Nada
Os  sintomas  acontecem
Deliberando  coisas  que  apetecem,
Ou  injetando  o  suplício  da  dor...
O  sorriso  e  o choro
São  sistemas  fugazes  e  antagônicos
Que  coabitam  entre  si
Nas  profundezas  do  universo...
Todas  as  adversidades  são  traiçoeiras,
Eis  que  os  fins  são  o  mesmo  chão...
A  beleza  e  a  feiura  dormem  juntas,
Pobreza  e  riqueza  não  têm  sentido...
Vale,  então,  a  pena  viver?
Sim,  vale...
Desde  que  a  moral  seja  o  discurso
E  a  idoneidade  do  caráter,  o  retrato...
Quando  assim  se  caminha,  reto  e  uniforme
Perante  as  veredas  alcatifadas  do  espaço,
É  porque  o  tempo  se  faz  inteligente...

E  nada  mais  importa!

Desvario


Talvez  já  não  viva  o  doce  despertar  da  vigília,
Um  sono  acrobático  cerra-me  a  decência  do  olhar
E  no  sonho  paraquedista  desço  sonâmbulo  sobre  o  mar
Provando  da  demência  o  néctar  da  atmosfera  dulcíssima.

Os  torvelinhos  fazem-me  rodopiar  no  astral  da  inconsciência
E  meu  raciocínio  adormecido  retém  do  fulgor,  a  sonoplastia...
Devaneios  íngremes  cirurgiam-me  uma  atroz  melancolia
E  meu  corpo  valsa  sobre  os  andaimes  das  vagas  sem  clemência...

Minhas  reflexões  se  perdem  dentre  o  meneio  das  águas
Que  balouçam  reticentes  diante  do  fluxo  e  refluxo  da  maré,
Num  delírio  de  sussurros  destaca-se  um  burburinho  de  fé
E  em  minha  face  sazonada  pelo  tempo  lágrimas  deságuam.

Através  da  corrente  marinha  sou  abandonado  num  banco  de  areia
E  salvo  da  tempestade  onírica  pelo  belíssimo  canto  da  sereia!