quinta-feira, 7 de abril de 2016

VIOLÃO CADUCO

Diante da curta vida enterro as quimeras
Que endossaram meus sonhos de menino,
Passei pelos anos sem vislumbrar destino,
Agora sou canteiros floridos de primavera.

Perante o tempo doei meu viço de alegria
E fiz das ilusões instrumentos de alegoria
Para dilapidar pedras preciosas do coração.

Sobre infinitas estradas deixei marcas e fé
E sobre as águas dos rios distribui o cafuné
Que acaricia as velhas cordas do meu violão...

Mediante devaneios que naufragaram no mar,
Vejo despertar em mim uma saudade ausente,
Todavia misturada à solidão é-me o presente
Que a natureza canta e me faz deveras sonhar!



DE  Ivan de Oliveira Melo

quarta-feira, 6 de abril de 2016

AMANTES

Durmam, amantes! O sol se põe
E a lua está cinzenta... Chove!
O mar parece pálido... É dote
Das procelas lisas, sem tostões...

Sonhem, amantes! Noite longa
E o frio é a catarse dos pecados,
Na madrugada o orvalho é regalo
De casais em que o amor ribomba...

Despertem, amantes! Vejam, é dia!
Leve brisa traz carinho e melancolia
Sob os lençõis úmidos de sangue...

Abracem-se, amantes! beijem o ritual
Dos lábios que esmeram o doce, igual
Prazer de uma mesma e sutil langue!


DE  Ivan de Oliveira Melo


terça-feira, 5 de abril de 2016

SISTEMAS ANTAGÔNICOS

Há demônios nas encostas do organismo...

Cotidianamente teço bravatas na surdina
A fim de expulsar os espantalhos do corpo

Que me assediam diuturnamente sem cessar...
Canto ladainhas como mantras de libertação
E me percebo aliciado por nocivos carrapatos

Que me sugam da eloquência, a inspiração...
São diabetes que buscam plagiar meus versos
E entocá-los no solo das amarguras anacrônicas
Donde se extrai o lirismo das forças ocultas...

Capetas dilaceram a ênfase inata das analogias
Circuncidando no ponto crucial, o pensamento.
Tombo intimado a refazer o abecedário do ritual,
Posto que encontro-me invadido por inimigos
Que entoam na canção última, inesperada derrota!



DE  Ivan de Oliveira Melo  

SOZINHO...

Não consigo ser outrem
Nem mesmo conhecê-lo a fundo...
Penetrar em seu íntimo? Jamais!
Há um receio em mim
De fazer-me comparações,
Pois sou alguém...
O ninguém não me interessa!
Meus comandos são pessoais
E sou dividido em partículas,
Portanto desconheço a mim próprio...
Amo a natureza e o cheiro dos ventos,
Adoro perder-me em becos sem saída
E regressar impune... Sou um sonhador!
Amo as distâncias circunstanciais
E dentro da solidão vejo de perto a vida,
Sou caramanchão do meu jardim...
E se a saudade me pune a recordar-me,
Simplesmente adormeço,
Espero o amanhecer do novo dia!



DE  Ivan de Oliveira Melo

MORTE

Bem distante de um éter desconhecido
Chega a terra um entulho de abrolhos...
Esperado ou não deixa úmidos os olhos
Dos que habitam neste solo empedernido.

Jamais descreve parábolas em sua volta,
Sempre que sempre destina sem retorno
O indivíduo que, sem direito a suborno,
Impotente segue silencioso e sem escolta.

Panorama tétrico... Sem efeito antibiótico
Que traduz a essência do ambiente gótico,
Onde se expira a vida de forma tresloucada...

Mistério que assalta os anseios sublimados,
Incógnita que são expressões sem telhados...
Enigmáticos sonhos da existência malograda!


DE  Ivan de Oliveira Melo



segunda-feira, 4 de abril de 2016

VELHICE

Vejo nos anos que correm as cicatrizes
Que marcam meu corpo ainda tão moço,
Só alguma flacidez em torno do pescoço
E uma eterna jovialidade de dias felizes!

A beleza está na alma que tudo pressente
E que dissolve no éter os tons de fadiga,
Viver é merendar com dia e noite amiga
Para reciclar o tempo que traduz a mente.

Dou glória ao meu pensamento de jovem,
Quanto aos miasmas que tanto se movem
Apenas os observo como mazelas da vida...

Não choro se envelheço, ainda sou criança,
Quero brincar, gritar, depositar na poupança
Cabelos grisalhos que são moeda e medida!


DE Ivan de Oliveira Melo



VEREDAS DA EXISTÊNCIA

O que sobra em mim após o pranto?
Lágrimas enferrujadas que me ferem
E contaminam sem dó minha alegria...

O que resta em mim após o sorriso?
Íons dourados que produzem o amor
E me recrutam para derribar a tristeza...

O que há em mim após uma decepção?
Ingenuidade por acreditar na sinceridade
Que foi transformada em hipocrisia...

O que a mim ocorre quando me aborreço?
Sinto em minh’alma a dor da desconfiança
E meus pensamentos tornam-se turvos...

O que a mim acontece quando há traição?
Entendo então que o homem é imperfeito
E que seu coração é terra apócrifa e sertão...

O que em mim existe quando há o amor?
Há um vulcão que eclode de felicidade
E em suas larvas há distribuição de ouro...

O que há a mim compete diante da morte?
Saber que vida é respiração de fraternidade
E de absoluto respeito ao meu próximo...

O que devo compreender quando estou só?
Que a solidão é recurso extremo de análise
E o mundo sobrevive no deserto das ofensas...

O que devo fazer quando a saudade se instala?
Perceber que apenas sente saudade quem ama
E faz do nosso universo Paraíso de Bênçãos...

Como devo proceder se sei que sou humano?
Saber que tive princípio e terei breve um fim,
Logo não corromper minha consciência pura...

Pois há muitas estradas por onde se caminha,
Todavia salutar é quem prima pela decência
E sabe purificar os caminhos da concórdia!


DE Ivan de Oliveira Melo